Eneias e Dom Quixote: dois heróis da melancolia
À primeira vista, nada parece aproximar Eneias, fundador mítico de Roma, e Dom Quixote, cavaleiro errante que combate moinhos de vento. Um nasce da solenidade épica de Virgílio; o outro, do riso moderno de Cervantes. Um carrega nos ombros o pai e o destino de um império; o outro monta um cavalo magro levando consigo livros de cavalaria e ilusões tardias. Mas a literatura, quando lida em profundidade, revela parentescos secretos. Ambos são, no fundo, heróis melancólicos.A melancolia de Eneias não é sentimental. É histórica. Ele surge após a queda de Troia, entre ruínas fumegantes, obrigado a viver quando tudo o que amava desapareceu. Sua grandeza nasce de uma perda irreparável. Carrega os deuses domésticos, salva o pai idoso, conduz o filho pela mão - e parte sem saber se encontrará terra ou paz. Não combate por glória pessoal, como Aquiles; combate porque lhe foi imposto o dever. A sua virtude chama-se pietas: fidelidade ao destino, à família, à missão. Eneias vence, mas cada vitória cobra luto. É um herói que funda sorrindo pouco.Dom Quixote também nasce entre ruínas, não as de uma cidade incendiada, mas as de uma imaginação histórica em colapso. Quando Cervantes o cria, a cavalaria já pertence ao passado. O mundo tornou-se pragmático, administrativo, mercantil. Já não há gigantes, castelos encantados ou donzelas cativas: há vendas poeirentas, estradas comuns e homens cansados. Quixote percebe isso? Em parte sim. Sua loucura talvez seja a forma extrema de lucidez: ele sabe que o mundo perdeu altura moral e decide viver como se ela ainda existisse.Eis o ponto de encontro entre ambos: os dois caminham em tempos tardios. Eneias é o sobrevivente de uma civilização destruída; Quixote, o sobrevivente de uma civilização esquecida. Um transporta os restos de Troia para fundar Roma; o outro transporta os restos da cavalaria para resistir ao presente. Ambos vivem cercados por destroços.Também os une a solidão. Eneias, mesmo cercado de companheiros, é incompreendido pelo peso singular de sua missão. Quixote, apesar da companhia fiel de Sancho, habita um universo mental que ninguém partilha. São homens deslocados do seu tempo. A melancolia nasce justamente daí: quando o espírito chega tarde ao mundo ou cedo demais.Mas há uma diferença decisiva. Eneias transforma a perda em fundação. Seu sofrimento desemboca em ordem política. Quixote transforma a perda em estilo moral. Nada funda, nenhum império ergue, nenhuma cidade inaugura. Seu triunfo é íntimo: conservar a dignidade no ridículo, a coragem no fracasso, a nobreza numa época cínica.Talvez por isso Dom Quixote seja o herói moderno por excelência. Depois dele, a literatura compreendeu que grandeza não consiste apenas em vencer batalhas, mas em sustentar valores quando o mundo já não os recompensa.Eneias e Quixote pertencem a épocas distintas, porém dialogam através dos séculos. Ambos sabem que toda aventura começa depois da ruína. E que a verdadeira heroicidade, muitas vezes, tem o rosto discreto da tristeza....
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