ENTREVISTA: Em tempos de economia da atenção, Renan Santos é mais perigoso que Flávio Bolsonaro

O bolsonarismo não é um movimento político coeso. Não é nem mesmo um bom nome para se referir aos eleitores de Jair Bolsonaro ou algum de seus filhos. Na verdade, pouco tem a ver com Bolsonaro, e sim com várias tendências da extrema direita que são reunidas na figura do ex-capitão: o homem certo, no lugar certo, na hora certa.
É isso que argumenta o filósofo Rodrigo Nunes em seu livro “Do transe à vertigem”. O bolsonarismo é o nome que damos à união de vários elementos diferentes — militarismo, anti-intelectualismo, empreendedorismo, anticomunismo, libertarianismo econômico, discurso anticorrupção, conservadorismo social —, que nem sempre estão de acordo entre si, debaixo da figura de Jair Bolsonaro.
Por isso, agora que o ex-presidente está preso, a disputa para garantir seu capital político está cada vez mais complexa. Quem quiser convencer como herdeiro de Jair, como Flávio Bolsonaro está tentando, vai precisar retomar esse “equilíbrio” alcançado pelo pai.
Esse é mais um capítulo na história recente da extrema direita brasileira, que Nunes analisa nos ensaios de “Do transe à vertigem”. O livro, que foi originalmente publicado em 2022, está sendo reeditado pela editora Ubu, com mais textos que tratam da ascensão do masculinismo e da algoritmização do debate público. Nunes chama isso de “colonização da política pela economia da atenção”.
É por causa dessa colonização que verdade e mentira são categorias cada vez menos importantes no debate: o que importa é se a atenção do público está sendo capturada.
Ao longo do livro, o professor da PUC-Rio e pesquisador visitante da Universidade de Essex, no Reino Unido, fala da ascensão do bolsonarismo como um movimento de empreendedorismo político, das Jornadas de Junho de 2013 e, no ensaio que dá nome ao livro, compara duas derrotas da esquerda brasileira a partir de dois filmes: o golpe militar de 1964 e “Terra em transe”, de Glauber Rocha; e o impeachment de Dilma Rousseff e “Democracia em vertigem”, de Petra Costa.
A nova edição de “Do transe à vertigem” chega na esteira de um retrabalho do livro não só para tratar de mais facetas da extrema direita contemporânea como para adicionar camadas de análise que podem interessar tanto para os brasileiros quanto para leitores estrangeiros.
O livro vai ser publicado em inglês com o título de Anatomy of Disintegration: What Brazil Reveals about the Far Right [em português, “Anatomia da Desintegração: O Que o Brasil Revela Sobre a Extrema Direita]. Nunes argumenta que o que acontece no Brasil deve ser acompanhado pelo mundo, já que a periferia, em sua junção do moderno e do arcaico, do desenvolvido e do subdesenvolvido, é o futuro.
É nesse futuro que a periferia do sistema capitalista prenuncia que é possível enxergar novas movimentações da extrema direita global — e também novas formas de reagir. “Uma política que se pretende transformativa”, escreve Nunes, “precisa necessariamente trabalhar ao mesmo tempo dentro dos limites do possível e sobre esses próprios limites, de modo a ampliá-los”. O desafio, agora, é fazer o impossível passar a ser possível.
Enquanto proponentes do realismo político “repetem dogmas de uma realidade que não existe mais”, desafios existenciais como a crise climática são deixados de lado e adiados. Para Nunes, forçar uma escolha excludente entre a questão ambiental e outras lutas, como a redução da pobreza ou o fim da fome, é uma forma de negacionismo.
A edição ampliada de “Do transe à vertigem” será lançada na terça, 11, na livraria Megafauna do teatro Cultura Artística, em São Paulo. O filósofo Vladimir Safatle, a cientista política Carô Evangelista e o comunicador Guilherme Terreri (mais conhecido pelo nome artístico Rita von Hunty) estarão junto de Nunes para debater sobre o livro.
Rodrigo Nunes conversou com o Intercept Brasil sobre as mudanças no bolsonarismo entre 2022 e 2026, o papel de Renan Santos na extrema direita brasileira e o que a esquerda pode fazer para convencer quem ainda não concorda com ela.

Intercept Brasil – A primeira edição de “Do transe à vertigem” foi publicada em 2022, um pouco antes da eleição. Agora, a segunda edição do livro sai poucos meses antes da eleição de 2026, em que Lula vai concorrer novamente com um candidato Bolsonaro. Você percebe alguma mudança importante no bolsonarismo desde que publicou a primeira edição? Flávio Bolsonaro é um Bolsonaro diferente de seu pai?
Rodrigo Nunes – Essa é uma das grandes dificuldades do Flávio Bolsonaro: decidir quem ele vai ser, se ele vai ter uma identidade própria. Isso se aplica a todo mundo que tenta herdar o capital político de Jair Bolsonaro.
Uma das coisas que eu insisto no livro é que, apesar de chamarmos esse fenômeno de extrema direita de bolsonarismo, o nexo entre o indivíduo Jair Bolsonaro e o fenômeno é relativamente contingente. Ele é a pessoa certa, no lugar certo e na hora certa para ser o líder político sob o qual se dá a costura de uma série de tendências sociais que já vinham se aproximando há algum tempo, desde junho de 2013, ou de maneira mais evidente e acelerada a partir da campanha pelo impeachment [de Dilma Rousseff].
É um momento marcado por um grande descrédito do PT, causado pela contestação que tomou as ruas em 2013 e pela conjunção da crise econômica e da Lava Jato, mas também pelo descrédito de todo o establishment político, que estava envolvido de alguma maneira na Lava Jato. Essas tendências buscavam alguém, uma alternativa política, e o Bolsonaro estava lá.
Os elementos do bolsonarismo – militarismo, anti-intelectualismo, neoliberalismo de baixo (a identificação com a figura do empreendedor), neoliberalismo de cima (economia de mercado renovada e radicalizada), anticomunismo, discurso anticorrupção, conservadorismo social – não são inteiramente consistentes entre si e não necessariamente dialogam sempre com os mesmos setores. Os setores diferentes com os quais cada um desses elementos dialoga nem sempre têm interesses plenamente convergentes.
O grande desafio para quem vai herdar o capital político de Bolsonaro é justamente conseguir manter esse equilíbrio que, por muita sorte, ele conseguiu estabelecer naquele momento entre as diferentes tendências que compõem o bolsonarismo. É preciso simbolizar o encontro desses elementos que não são perfeitamente compatíveis entre si.
Você tinha uma figura como o Tarcísio de Freitas, que era apontada como “o bolsonarismo mais moderno”, “bolsonarismo de gestor”, que dialogaria melhor com o mercado financeiro. Por conta desse perfil, ele corria o risco de perder alguma coisa do bolsonarismo popular. Por outro lado, uma figura como Pablo Marçal dialogava muito com essa vertente de “neoliberalismo desde baixo”, do empreendedorismo de si mesmo, mas perdia um pouco da capacidade de diálogo com o establishment, porque era uma figura muito mais outsider da política.
Mas e Flávio Bolsonaro?
Esse tem sido o desafio de Flávio Bolsonaro: ele tentou, por um tempo, se apresentar como uma figura moderada, mas agora está refazendo o jogo político do pai, inclusive com uma certa ajuda do governo Trump, de colocar em dúvida a idoneidade do sistema eleitoral.
As diferenças que a gente está vendo no bolsonarismo tem a ver com o fato de que ninguém até aqui conseguiu a mesma alquimia de reunir todos esses elementos em um mesmo equilíbrio, e Jair Bolsonaro conseguiu essa alquimia muito mais pelas circunstâncias do que pela capacidade dele. Diferentes agentes estão tentando abocanhar pelo menos uma parte desses elementos para si, tentando ser representantes de setores específicos. É aí que entra uma figura como Renan Santos.
Por falar em Renan Santos, você escreve sobre a figura do troll, que entra no debate público de forma irônica, fala absurdos e acaba trabalhando para naturalizar esses absurdos. Você associa isso ao bolsonarismo. Hoje, o Renan Santos parece fazer isso o tempo todo. Ele tem vídeos no Instagram usando IA para emular o estilo dos filmes do Studio Ghibli apresentando um sonho para o Brasil, mas é um sonho que envolve matar criminosos. Ele e o partido Missão fazem muita questão de se distanciar do bolsonarismo. Existe tanta diferença assim?
Tem uma diferença importante. Se a gente pensar o bolsonarismo não especificamente como o que foi o governo Bolsonaro e o capital político da família, mas sim o bolsonarismo como a primeira expressão brasileira de extrema direita global contemporânea, a gente vai ver que tem uma grande diferença — que me parece uma diferença para pior — entre um primeiro momento caracterizado por Donald Trump, Jair Bolsonaro, Boris Johnson, Nigel Farage e Narendra Modi e um segundo momento de figuras como Pablo Marçal, Renan Santos, o presidente de El Salvador Nayib Bukele e até, em alguma medida, Javier Milei, que talvez seja uma figura intermediária entre os dois momentos.
Os políticos desse primeiro momento são figuras anteriores à colonização da política pela economia da atenção, mas aprenderam, foram bem assessorados, têm o faro para entender a direção em que as coisas estão indo. Eles aprenderam a jogar o jogo da economia da atenção, mas não são nativos do jogo. Kim Kataguiri, Renan Santos, Nayib Bukele e Pablo Marçal são figuras nativas desse jogo, que se formam politicamente nesse jogo e dominam ele de forma muito mais intuitiva e forte.
Eles já são nativos desse tipo de comunicação, então é muito natural o uso da ironia como um mecanismo de distanciamento em relação ao próprio discurso. Sempre há uma dúvida do quanto aquilo é sério ou não. “Eu estou falando sério ou estou brincando sobre ser ditador?” A gente só vai saber pelos efeitos.
Na primeira campanha presidencial de Donald Trump, em 2016, o megaempresário do Vale do Silício Peter Thiel disse que o que a mídia não entende sobre o Trump é que seus eleitores não o levam literalmente, mas levam a sério, enquanto a mídia não o leva a sério porque o entende literalmente. Isso é uma observação profunda.
‘Figuras como Marçal e Renan Santos são muito mais preocupantes porque já são nativas desse mundo de economia da atenção’.
O distanciamento do troll em relação ao próprio discurso permite um distanciamento também para quem recebe esse discurso. Assim, alguém pode entender que “matar todos os criminosos” não é literal, mas entende que algo nesse sentido precisa ser feito.
Figuras como Marçal e Renan Santos são muito mais preocupantes porque já são nativas desse mundo de economia da atenção e, diferente de Jair e Flávio Bolsonaro, eles lêem a direção em que as coisas estão indo de maneira muito mais clara e acelerada: uma junção dos interesses do Vale do Silício, da indústria militar e da indústria petroleira com o aparato estatal, como está acontecendo no segundo governo Trump.
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No livro, você argumenta que uma coisa que complica ainda mais o equilíbrio de forças do bolsonarismo é que Bolsonaro pai e os filhos, com seu faccionalismo, conexões suspeitas e ataques constantes a pessoas de fora e até da própria família, como deu para perceber na briga recente entre Flávio e Michelle Bolsonaro. O bolsonarismo vive numa instabilidade perene. Isso é um problema ou sempre foi assim, continuará sendo assim e talvez é daí que vem a força do bolsonarismo?
Se a gente pensa a polêmica entre Flávio e Michelle Bolsonaro a partir da chave da colonização da política pela economia da atenção, a gente sai de uma oposição simplista entre uma ruptura ou uma jogada ensaiada. Na verdade, não importa mais. O que importa é capturar atenção.
Eu acho que em muitos sentidos essa é uma briga real. A Michelle sabe que ela consegue alcançar uma parcela do eleitorado com a qual o bolsonarismo tem dificuldade, as mulheres. Se ela forçasse uma ruptura, ela levaria uma parcela dos evangélicos que votaram no Jair e hoje votam nos filhos do Jair. Porém, no fim das contas, essa briga pode ser útil para todo mundo, porque o que isso faz é chamar a atenção para os dois e situá-los para seus respectivos públicos.
‘Estamos vivendo em um momento da história em que essas questões — é verdade ou mentira? É acidente ou deliberado? — de certa maneira se tornam supérfluas, porque o importante é estar capturando a atenção das pessoas, capturando mais e de forma mais eficiente do que seus adversários’.
A briga está mantendo os dois em evidência, permitindo testar outras mensagens. A tendência é que isso chegue a uma acomodação: Michelle apoia Flávio e atrai esse eleitorado de volta para a candidatura, ao mesmo tempo que mantém seu controle sobre esse eleitorado.
Estamos vivendo em um momento da história em que essas questões — é verdade ou mentira? É acidente ou deliberado? — de certa maneira se tornam supérfluas, porque o importante é estar capturando a atenção das pessoas, capturando mais e de forma mais eficiente do que seus adversários.
O final do livro mudou bastante da primeira para a segunda edição, não em ideia, mas em conteúdo. Em 2022, estávamos no começo da década de virada para diminuir o uso de combustíveis fósseis. Em 2026, passamos da metade da década, e parece que o tema mais urgente do nosso tempo perdeu a urgência que já teve. Como podemos dar à crise climática a urgência que ela precisa?
A primeira edição termina dizendo que o grande desafio da década será uma mudança de matriz energética, de uma matriz baseada nos combustíveis fósseis para uma matriz baseada em energias renováveis, mas também fazer com que essa transição energética seja efetivamente uma transição para um outro sistema econômico e político em nível global.
Só a transição energética não será suficiente para resolver o problema do aquecimento global, então o nosso grande desafio será tensionar o movimento na direção de uma transição para outra coisa que não seja mais o capitalismo e uma economia baseada na ideia completamente insustentável de crescimento infinito no interior de um sistema finito como o planeta Terra.
Quatro anos depois, o diagnóstico evidente é que, passando da metade dessa década, não demos uma guinada radical para diminuir o uso de combustíveis fósseis. Do ponto de vista político, andamos para trás, já que está mais difícil de pautar esses assuntos no debate público.
Pisamos no acelerador em três pontos. O primeiro deles é que os Estados Unidos perceberam que perderam a corrida de tecnologia verde para a China. Pensando em manter sua hegemonia global, uma transição para uma economia verde não interessa mais aos Estados Unidos, já que essa transição virou um dos principais elementos de soft power chinês. Por isso, os EUA estão pisando no acelerador de combustíveis fósseis.
‘O nosso grande desafio será tensionar o movimento na direção de uma transição para outra coisa que não seja mais o capitalismo e uma economia baseada na ideia completamente insustentável de crescimento infinito no interior de um sistema finito como o planeta Terra’.
O segundo é que o grande capital — Vale do Silício, indústria petroleira e de logística, indústria de segurança — constatou que já era. Saiu uma matéria no The Guardian há dois anos com uma grande pesquisa com cientistas do IPCC perguntando se acreditavam que impedir o aquecimento de 1,5 °C ainda era possível. A imensa maioria diz não. [Só 6% acreditavam que o limite de 1,5 °C seria respeitado.] Isso é devastador, porque são as pessoas debruçadas sobre as projeções climáticas que estão dizendo que já era. O grande capital — e a gente vê isso na fusão entre empresas como a Palantir com o Departamento de Estado dos Estados Unidos — entendeu que vai haver um mundo onde não há mais mundo para todo mundo. Mais eventos climáticos extremos, elevação do nível dos mares, migração e fome em massa: um mundo em que a fronteira entre vida protegida e vida matável ou morrível vai recuar cada vez mais. O que o grande capital está fazendo é movendo suas fichas para assegurar que vão estar do lado protegido da fronteira.
O terceiro ponto, que segue diretamente deste e que eu identifico num texto sobre o sequestro de Nicolás Maduro que saiu na Folha de S.Paulo, é que a gente pode identificar na esfera das relações internacionais, como em muitas outras esferas, uma passagem da hipocrisia ao cinismo. Antes, os líderes políticos pelo menos faziam de conta que fariam algo contra o aquecimento global. Hoje, nem isso fazem. São capazes de fazer piada com o assunto.
Essa é a grande luta do nosso tempo. Não no sentido de que ela deve ser feita por exclusão de todas as outras lutas, mas no sentido de que esse é o horizonte final, e se a gente não resolve o problema da crise climática, todos os problemas se tornarão maiores — ou, no final das contas, deixarão de ser problemas, porque a parte não bilionária da humanidade estará extinta.
Qualquer ação política hoje que não seja compatível com a crise climática não pode ser levada a sério.
Esse é o horizonte final para o qual precisamos nos voltar, mas é um horizonte difícil. A questão ambiental só existe a partir de certo ponto de abstração. É verdade que muitas pessoas já estão enfrentando inundações e eventos climáticos extremos, mas essas coisas só são consequências da crise climática se você relacioná-las a algo maior. O que as pessoas experimentam é a inundação, não a questão ambiental. Talvez a prova do que estou falando é que em lugares que foram afetados por inundações violentíssimas, como Porto Alegre ou Valencia, na Espanha, a extrema direita, que justamente minimiza a questão ambiental, saiu fortalecida.
Isso mostra que o desafio da questão ambiental é diferente da questão trabalhista, por exemplo. O que todos os movimentos preocupados com isso deveriam encampar é que a questão ambiental não é uma questão separada das outras, mas sim uma lente absolutamente imprescindível para ler todas as outras questões.
No livro, você defende que quando há um foco muito grande numa identidade política fechada, é muito difícil atrair quem se vê fora dessa identidade. Estamos em ano eleitoral, e a discussão agora é sobre vencer e convencer as pessoas, e não sobre falar com quem já concorda conosco em todos os assuntos. Você escreve que o que convence as pessoas não são identidades fixas, mas sim “ideias que efetivamente façam sentido”. Quais são algumas dessas ideias que a esquerda poderia defender nessa eleição?
Eu faço uma oposição entre radicalização programática e radicalização identitária. Uma coisa é a gente apresentar propostas que estão à altura da radicalidade dos problemas, propostas que vão fundo o suficiente para atingir a raiz dos problemas. Outra coisa é a gente radicalizar nossa identidade: vestir mais vermelho, usar uma linguagem mais adequada e inclusiva e exigir que todo mundo use essa linguagem, consumir apenas certo tipo de cultura e menosprezar quem não consome a mesma cultura que nós.
Por radicalização identitária eu entendo algo muito diferente do que uma parte da esquerda acusa de identitarismo, que muitas vezes é apenas uma reivindicação absolutamente legítima de grupos ditos minoritários, como os indígenas, as mulheres, os negros, as pessoas LGBTQIA+.
A esquerda em sua definição de almanaque é aquela força política que se colocou ao lado dos explorados e oprimidos, que defendeu a expansão de direitos. Entra um raciocínio por metonímia: se você é oprimido e explorado, você deveria ser de esquerda, você deveria se identificar com essa identidade. É um salto: se você ocupa tal lugar na sociedade, você precisa ter tal identidade. O problema é achar que existe essa passagem necessária entre interesse e identidade e, se a pessoa não faz essa passagem, ela é burra.
Esse é o grande problema do discurso do pobre de direita: está sempre subentendido que ele seria burro porque não consegue entender seus interesses. O problema é que entre interesse e desejo — entre a pessoa ter um interesse objetivo por coisas que fariam sua vida melhor e desejar essas coisas, essa vida diferente — existe a questão da identidade, e essa questão é muito mais fluida e menos ancorada por determinações objetivas.
Se você entra no jogo político dizendo “a minha identidade é essa, de esquerda, e você, oprimido, deveria ter a minha identidade, porque se não tiver você é burro”. Isso não é apenas uma maneira extremamente antipática e burra de fazer política, como também uma péssima maneira de defender os interesses dos oprimidos e dos explorados, porque você não convence sequer eles a tomar o seu lado.
É essencial aprender a diferenciar identidade de fazer política. Isso não quer dizer que as pessoas não devam ter suas identidades, mas elas não devem deixar suas identidades as atrapalharem de fazer política, de se comunicar com aqueles que ainda não tem essas identidades, mas que seriam aliados e companheiros de viagem naturais.
Mas como trazer essas pessoas para o campo progressista?
O que é preciso aprender a fazer é mostrar para as pessoas que independente de quaisquer identidades — se as pessoas são evangélicas, se votaram na direita, se acreditaram que o Bolsonaro resolveria seus problemas — é possível concordar que a vida poderia ser melhor.
Uma grande dificuldade que a gente tem nesse sentido é que o mundo tal como ele é organizado tende a produzir identificações e desejos que são compatíveis com o mundo tal como ele é organizado. Um exemplo óbvio: embora a chance de um motoboy se tornar um empresário bem-sucedido e ter um milhão no banco seja ínfima, é mais fácil para ele se projetar nessa chance ínfima do que imaginar que poderia ter uma grande reorganização de todas as coisas que permitiria a ele viver melhor, menos explorado e mais feliz em outros termos.
A extrema direita sempre vai levar vantagem nesse ponto, porque ela está dizendo coisas mais compatíveis com o mundo como ele é — por mais que sejam coisas horríveis, como “a maré está subindo e não vai ter bote salva-vidas para todo mundo, então esse é o momento de empurrar pessoas para fora do navio”.
Essa dificuldade não nos exime de propor coisas novas. Um grande exemplo é a campanha pelo fim da escala 6×1, a primeira coisa a sair da esquerda em muito tempo que conseguiu colocar a extrema direita na defensiva. A extrema direita viu que era muito difícil para eles, ao mesmo tempo, se manterem coerentes com o que eles defendem e não abrir o jogo para sua base eleitoral e dizer: “olha, na verdade a gente defende a exploração de vocês”.
Um outro exemplo é a taxação de grandes fortunas. Tem uma questão que parece que nunca entra na discussão, que é que restringir a riqueza que está nas mãos de um pequeno número de pessoas também é restringir o poder que essas pessoas têm de definir quais são as prioridades da sociedade — algo que hoje elas têm poder absolutamente desproporcional para definir, por sua capacidade de investimento e por sua capacidade de intervir na política, alinhando as instituições segundo seus interesses.
A gente precisa dizer que tem muita coisa que está muito errada. A gente está acelerando na direção de um precipício, que só será bom para cada vez menos pessoas. A gente precisa de uma guinada radical, e precisamos mostrar para as pessoas o que a gente pode fazer nessa direção. Esse é o nosso desafio hoje.
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