Estudo projeta ‘savanização’ acelerada das florestas tropicais até 2060
Mudanças na vegetação tropical que foram vistas ao longo de milhões de anos poderão se repetir em apenas algumas décadas. Estudo de pesquisadores da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) analisou a distribuição de desertos, regiões semiáridas, formações arbustivas, savanas, áreas úmidas e florestas desde o fim do Plioceno, há aproximadamente 3,3 milhões de anos, até o Holoceno tardio –que teve início há cerca de 4.200 anos –, e projetou as alterações potenciais para o período de 2041 a 2060. Os resultados indicam retração das florestas e expansão de savanas e de outras formações abertas, com mudanças mais intensas na Amazônia.
Publicado no Journal of Biogeography, o artigo é assinado pelos professores Ubirajara Oliveira e Britaldo Silveira Soares Filho, do CSR (Centro de Sensoriamento Remoto) da UFMG. Para reconstruir a trajetória da vegetação tropical, os pesquisadores usaram dados climáticos de diferentes períodos para estimar onde estavam os principais tipos de vegetação e se a cobertura vegetal era mais aberta ou fechada. A análise possibilitou identificar mudanças na extensão, na organização espacial e na conectividade dos biomas, além de localizar áreas que permaneceram relativamente estáveis durante milhões de anos.
Segundo Ubirajara, o panorama de mudanças no ambiente poderá repercutir negativamente na continuidade de muitas espécies. “Considerando que elas são dependentes de condições ambientais específicas para sobreviver, poucas deverão ser favorecidas por essas mudanças. É provável que isso gere um grande impacto na biodiversidade tropical”, estima.
Cenários
As projeções para 2041 a 2060 foram feitas com base em 2 cenários futuros de emissões de gases de efeito estufa. Em ambos, os modelos apontam redução das florestas tropicais e abertura da vegetação. No cenário de emissões mais elevadas, a projeção para a Amazônia indica redução de até 38% da área potencial de floresta.
A velocidade das transformações é um dos principais alertas do estudo. De acordo com o artigo, as mudanças projetadas para as próximas décadas apresentam magnitude comparável à de alterações ocorridas no fim do Plioceno (época que durou cerca de 2,7 milhões de anos), mas estarão concentradas em um intervalo de tempo muito menor.
Estabilidade e resistência
Ao reconstruir os últimos 3,3 milhões de anos, os pesquisadores verificaram que cerca de 22% das regiões tropicais conservaram o mesmo tipo principal de vegetação. O estudo identificou áreas historicamente estáveis na Amazônia, na África e no Arquipélago Malaio, entre outras regiões.
Na Amazônia, um núcleo correspondente a aproximadamente 38% da extensão potencial do bioma permaneceu coberto por floresta durante o período analisado. Para Ubirajara, no entanto, essa longa estabilidade não significa necessariamente que a região seja mais tolerante às mudanças futuras.
“Apesar de parecer contraintuitivo, esse núcleo estável pode ser a parte da Amazônia menos resistente. Milhões de anos com o clima e a vegetação relativamente estáveis podem ter selecionado espécies e linhagens evolutivas que são muito adaptadas a determinadas condições. Assim, elas podem ser muito mais sensíveis do que as que viveram em locais que mudaram muito ao longo do tempo. A Amazônia, na verdade, é a região que mais nos preocupa, pois pode ser mais vulnerável que as demais”, reflete.
Diferentemente da Amazônia, a maior parte da Mata Atlântica passou por mudanças climáticas e de vegetação ao longo do período analisado. O estudo classifica 56,43% do bioma como área de elevada instabilidade. Segundo Ubirajara, no entanto, o principal problema contemporâneo da Mata Atlântica é a perda de habitat causada pela ação humana. “O bioma sofreu, na maior parte do seu território, grandes mudanças ao longo do tempo. Isso pode ter favorecido sua biodiversidade, que pode até ter se tornado mais resiliente a mudanças ambientais. Sua vulnerabilidade atual se justifica, principalmente, pelo desmatamento histórico e recente”, esclarece.
Políticas de conservação
Para Ubirajara Oliveira, as informações sobre estabilidade e vulnerabilidade das regiões podem subsidiar novas investigações para orientar políticas públicas de conservação. “As áreas estáveis possivelmente apresentam espécies mais sensíveis a mudanças – são, portanto, áreas prioritárias para conservação. Mas temos que pensar também nas áreas que estão sofrendo com o desmatamento e pressões como caça e fogo e avaliar quais podem estar mais suscetíveis a mudanças climáticas no futuro. Assim, esse estudo serve como base para iniciarmos uma investigação mais profunda, para direcionar essas políticas”, afirma.
Como explica Ubirajara, é fundamental combater o desmatamento no Brasil, bem como os incêndios e as ações predatórias, como a caça, com o objetivo de mitigar os impactos drásticos das mudanças climáticas. “E precisamos de ações globais que reduzam as emissões de gases do efeito estufa para uma proteção realmente efetiva da biodiversidade tropical”, acrescenta o professor.
Este texto foi publicado originalmente pela UFMG, às 8h024 em 30 de julho de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.
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