"Glauber Rocha foi o mais indignado de nós"

Agos 24, 2026 - 05:00
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"Glauber Rocha foi o mais indignado de nós"



					"Glauber Rocha foi o mais indignado de nós"
Foto/Reprodução

“Sua breve vida. Sem pele, com a carne exposta. Capaz de gozo decerto, não é, Glauber? Mas mais capaz de dor, da nossa dor.

Uma vez, eu não vou esquecer nunca, Glauber passou a manhã abraçado comigo chorando, chorando, chorando convulsivamente.

Eu custei a entender, ninguém entendia, que Glauber chorava a dor que nós devíamos chorar, a dor de todos os brasileiros.

O Glauber chorava as crianças com fome, o Glauber chorava esse país que não deu certo, o Glauber chorava a brutalidade, o Glauber chorava a estupidez, a mediocridade, a tortura e não suportava, chorava, chorava, chorava…

Os filmes do Glauber são isso, é um lamento, é um grito, é um berro. Esta é a herança que fica de Glauber.

O que fica de Glauber para nós: a herança de sua indignação. Ele foi o mais indignado de nós.

Indignado com o mundo tal qual é, assim, indignado porque mais que nós também Glauber podia ser o mundo que podia ser… que vai ser, Glauber! Que há de ser!

Glauber viveu entre a esperança e o desespero, como um pêndulo, louco.”

Esse texto é a transcrição do discurso que Darcy Ribeiro fez diante do caixão com o corpo do cineasta Glauber Rocha, na hora do sepultamento, no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Era domingo, 23 de agosto de 1981.

Glauber Rocha morrera no dia anterior, sábado, 22 de agosto de 1981. O realizador de Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe tinha somente 42 anos.

A imagem abaixo, fui buscar no Youtube. É de Darcy Ribeiro, em forte emoção, no momento em que ele discursava, no enterro de Glauber Rocha. 

Glauber Rocha e Darcy Ribeiro. Dois grandes brasileiros. Glauber Rocha e Darcy Ribeiro. Dois construtores do Brasil. 


					"Glauber Rocha foi o mais indignado de nós"
Imagem/Reprodução YouTube

Sábado passado, 22 de agosto de 2026, fez 45 anos da morte de Glauber Rocha. Fecho com a transcrição de um texto que escrevi sobre ele há anos.

"Lembro que, no dia seguinte à morte de Glauber, o Jornal do Brasil circulou com textos assinados pelos críticos Ely Azeredo e José Carlos Avellar.

Um deles mencionava o gênio do construtor, o cineasta que levou o cinema brasileiro a obter grande prestígio internacional com os filmes que realizou, sobretudo Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro.

O outro artigo falava do mito do demolidor, a figura de opiniões polêmicas e discurso muitas vezes incompreendido, principalmente quando enxergava nos militares que tomaram o poder em 1964 um caminho que levaria o país à redemocratização.

Lembro das duas imagens registradas por Azeredo e Avellar porque temo que, ao longo dos anos, o mito do demolidor tenha se sobreposto ao gênio do construtor. O que, se é verdade, representa uma profunda injustiça com um cineasta do tamanho de Glauber.


					"Glauber Rocha foi o mais indignado de nós"
Foto/Reprodução

O homem que fez Deus e o Diabo na Terra do Sol com 25 anos e estarreceu os europeus com seu filme não pode ser lembrado só pelas falas desesperadas dos últimos anos de sua vida curta.

O realizador que retratou o Brasil no país imaginário de Terra em Transe não pode ser avaliado como se ainda nos guiássemos só pelos confrontos entre esquerda e direita.

Prefiro a percepção que, de longe, Martin Scorsese tem do significado de Glauber Rocha. Cineasta e pensador do cinema, o americano de origem italiana vê e revê os filmes de Glauber e os apresenta aos seus atores.

É um contraponto aos cinéfilos e homens de cinema que, entre nós, detratam Glauber, subdimensionam a sua obra e reforçam a tese de que, nele, o mito do demolidor é mesmo muito maior do que o gênio do construtor.

Melhor fundir os dois, enxergando em Glauber um cinema que nasceu da sua profunda inquietação criativa e da combinação desses elementos. O construtor e o demolidor, ambos movidos por uma grande ambição e um extraordinário desejo.

Nas imagens e nos sons que trazem John Ford, Akira Kurosawa e Villa-Lobos para o Sertão da Bahia em Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Nas questões cruciais ainda não superadas pelo Brasil nessas décadas que nos separam de Terra em Transe.

No delírio de A Idade da Terra, síntese do seu desespero e também da sua ousadia estética.

A ambição e o desejo de Glauber falam do cinema brasileiro e do nosso destino como Nação."

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