Histórias que a Folha contou: reportagem ajuda homem a conseguir cirurgia na coluna

Uma campanha para arrecadar mais de R$ 90 mil mobilizou pessoas em torno da história de Felippe Leal, analista de sistemas que precisava passar por uma cirurgia na coluna para evitar possíveis sequelas motoras. Em 2024, a FolhaBV contou o caso e ampliou a divulgação do pedido de ajuda. Com as contribuições, ele conseguiu realizar o procedimento em 13 de dezembro daquele ano, em Roraima.
Quando a reportagem entrou em contato com Felippe, ele já havia conseguido parte do valor, mas ainda precisava de ajuda para completar a quantia necessária. O pedido de apoio, que começou entre familiares e amigos, ganhou alcance com a divulgação da história pelo jornal. Pessoas que ele sequer conhecia contribuíram para a arrecadação.
O problema de saúde começou anos antes. Por volta de 2015, Felippe já sabia que tinha uma hérnia de disco. Na época, recebeu orientação médica de que poderia adiar a cirurgia, e seguiu convivendo com a condição.
Com o passar do tempo, porém, os sintomas se intensificaram e ele começou a sentir formigamento nas mãos, choques nos braços e fortes dores de cabeça, além de crises de enxaqueca. Os sintomas variavam de um dia para o outro e também afetavam a rotina de trabalho.
“Era até difícil, assim, de explicar pras pessoas no trabalho. Às vezes as pessoas não acreditavam: ‘pô, ele estava tão bem ontem, hoje já não vim trabalhar'”, relembrou.
Ao procurar outros especialistas, Felippe recebeu uma avaliação que aumentou a urgência do procedimento. Um dos neurocirurgiões consultados explicou que a compressão na medula já era significativa e alertou para o risco de sequelas caso houvesse perda de força ou de movimentos antes da cirurgia.
“Ele me falou: ‘Olha, pelo os teus sintomas, tem que fazer o quanto antes, porque se tu chegar a ter perda de força, perda motora, talvez tu faça a cirurgia e não volte mais. Talvez tu fique com sequela, não possa mexer os braços, Deus o livre até as pernas'”, contou.
A notícia fez com que ele buscasse recursos para custear o procedimento. Além da cirurgia, era necessário contratar uma especialista de fora do estado para realizar a monitorização neurofisiológica durante a operação, técnica que permite acompanhar, em tempo real, as respostas do sistema nervoso.

O cuidado era importante para reduzir os riscos durante a intervenção na coluna. Felippe conta que o neurocirurgião poderia realizar o procedimento sem a monitorização, mas decidiu buscar o valor necessário para contar com o acompanhamento especializado.
“Porque, assim, o neurocirurgião me falou que ele conseguiria fazer a cirurgia. Mas que era importante [ter um profissional especializado], porque, um milímetrozinho pra cá ou um milímetro pra lá, poderia definir a minha condição pro resto da vida”, relatou.
Em novembro de 2024, Felippe realizou os exames necessários para a fase pré-operatória. Depois das avaliações, foi considerado apto para passar por uma discectomia e artrodese cervical, procedimento destinado a tratar o problema na coluna.
No dia 29 de novembro, ele formalizou a contratação da equipe médica do Amazonas responsável pela monitorização neurofisiológica. A cirurgia foi realizada em 13 de dezembro, em Roraima.
Mobilização de leitores
A divulgação do pedido de ajuda pela Folha ampliou o alcance da campanha. “Teve muita gente que me ajudou, sabe? O mais engraçado é que eu esperava ajuda de algumas pessoas e acabou que pessoas que eu nem conhecia acabaram me ajudando mais do que pessoas que eu achava que iam me ajudar”, afirmou.
A esposa de Felippe, Poliane Leal, assessora jurídica, acompanhou todo o processo de arrecadação e destaca que a divulgação pela imprensa ampliou o alcance da campanha. Segundo ela, familiares e amigos costumam ser os primeiros a quem se recorre em situações difíceis, mas nem sempre essa rede de apoio é suficiente para reunir o valor necessário para um tratamento.

Poliane também explica que a desconfiança gerada por golpes envolvendo pedidos de doação pode dificultar a mobilização nas redes sociais. Nesse contexto, a publicação em um veículo de imprensa ajuda a dar visibilidade à situação e oferece ao público mais informações para verificar a veracidade do pedido.
“Quando a gente escolhe e tem uma ajuda de um veículo de imprensa oficial, isso é um teste de fé, que realmente aquilo é verídico, que você pode acreditar, que não é um golpe. E as pessoas, elas se sensibilizam mais em ajudar, e ajudam”, afirmou.
A família recebeu contribuições de pessoas que não conhecia, inclusive em pequenos valores. Para Poliane, a experiência mostrou como doações individuais, mesmo quando parecem pequenas, podem ganhar dimensão quando muitas pessoas se mobilizam pela mesma causa.
“Você fica sensível, você chora, você se toca, porque você olha o seu Pix e vem entrando valores pequenos, mas que, se somados, é uma corrente gigantesca. É isso que eu digo às pessoas: não fiquem com vergonha de doar centavos, de doar um real. Qualquer quantia vinda de forma voluntária e que você acredita por meio de uma matéria de imprensa, somada a todas as outras pessoas que têm a mesma atitude, faz uma diferença enorme”, disse.
Poliane afirma que acompanhar a arrecadação também renovou a confiança nas pessoas. Ela reconhece o trabalho de apuração envolvido na publicação e agradece pela oportunidade de tornar pública uma situação que, até então, a família não imaginava viver.
Recuperação e novos limites

Quase dois anos após à cirurgia, Felippe relata melhora significativa. As dores de cabeça praticamente desapareceram, e afirma não sentir os formigamentos nas mãos nem os choques nos braços. Também não enfrenta mais os episódios de falta de força que o preocupavam antes do procedimento.
No entanto, a recuperação exigiu mudanças no estilo de vida por causa da prótese colocada durante a cirurgia. Segundo o analista, com a nova situação, precisou abandonar atividades de impacto e não pode mais praticar jiu-jítsu, seu esporte favorito.
“Como eu digo, não estou 100% porque, como o doutor me explicou, depois que você coloca uma prótese, tem certas coisas que você não pode mais fazer. Por exemplo, eu não posso mais treinar jiu-jítsu, tenho que evitar corrida, atividade de impacto, mas ele me liberou para fazer coisas leves, como caminhada e bicicleta”, contou.
Apesar das limitações, ele diz que decidiu concentrar a atenção nas atividades que ainda pode realizar, em vez de se prender às mudanças impostas pela cirurgia. “Eu adaptei a minha vida, em vez de olhar praquilo que estava faltando, eu resolvi olhar para aquilo que eu posso fazer”, afirmou.
Uma experiência que mudou a forma de ajudar

A experiência também mudou a maneira como Felippe se relaciona com os pedidos de ajuda de outras pessoas. Antes de enfrentar a situação, ele diz que não costumava contribuir com campanhas de desconhecidos. Depois de precisar da solidariedade alheia, passou a ajudar sempre que pode.
Ele afirma que não é necessário ter muito dinheiro para contribuir porque a soma de pequenas doações pode representar uma ajuda importante para quem enfrenta uma situação de urgência. Para Felippe, a solidariedade que recebeu durante o tratamento se transformou em um compromisso de ajudar outras pessoas quando estiver ao seu alcance.
“Às vezes, a gente não é rico, não está podendo muito, mas o mínimo que pode fazer, faz. Eu já estive do outro lado e sei como aquilo que, às vezes, você pensa ‘ah, é pouco’ ajuda pra caramba a pessoa, porque é muita gente ajudando. Eu nunca imaginei que ia passar por uma situação dessas, de precisar pedir ajuda às pessoas. Depois que estive do outro lado, passei a pensar mais no próximo e, toda vez que posso ajudar alguém, algum desconhecido, qualquer pessoa que esteja precisando, faço a minha contribuição. Pode ser pouquinho, mas eu faço”, concluiu.
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