Nikolas Ferreira voou em jatinho de empresário denunciado por lavagem de dinheiro

Mar 12, 2026 - 12:00
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Nikolas Ferreira voou em jatinho de empresário denunciado por lavagem de dinheiro

O relógio marcava 20h37 da última quarta-feira, 3, quando o deputado federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, resolveu fazer piada no Twitter. Dentro de um voo comercial, publicou uma foto e escreveu: “Tomara que o dono da Latam não cometa nenhum crime daqui 4 anos”. 

A frase era uma tentativa de ironizar a repercussão de um episódio que havia constrangido o parlamentar naquele dia: a revelação de que ele viajou em 2022 em um jatinho que pertencia ao banqueiro Daniel Vorcaro, personagem central do escândalo do Banco Master.

A piada tenta transformar em exagero aquilo que, na verdade, é uma pergunta legítima do jornalismo: quem financia a circulação política de um dos principais quadros da extrema direita brasileira? No caso dos voos de 2022, Nikolas disse que não sabia quem era o dono da aeronave.

Mas a história não termina ali. Ao examinar registros de fretamento e documentos de prestação de contas do PL, encontramos outro episódio relevante envolvendo os jatinhos usados pelo deputado — desta vez, durante a campanha municipal de 2024.

E há um detalhe que torna essa nova história ainda mais reveladora. Diferentemente do caso do jatinho de Vorcaro, no episódio que apresento a seguir, o dono da aeronave já havia sido denunciado bem antes de Nikolas entrar no avião.

O tema desta newsletter nasceu de uma apuração do Eduardo Goulart, novo editor sênior do Intercept Brasil. É um reforço que empolga nossa equipe por ser uma das maiores referências em investigações digitais e, como vocês vão ver a seguir, alguém que sabe transformar um detalhe aparentemente banal em grandes histórias. Vamos aos fatos.


Os voos de Nikolas

Durante a campanha municipal de 2024, quando rodou o Brasil para promover candidatos do PL, Nikolas utilizou uma aeronave que pertence a um empresário denunciado pelo Ministério Público de São Paulo por integrar uma organização criminosa voltada à lavagem de dinheiro e à exploração ilegal de jogos de azar, incluindo máquinas caça-níqueis.

As informações foram obtidas por meio do cruzamento de registros de fretamento e documentos de prestação de contas do Partido Liberal, o PL, com dados da Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac.

Naquele pleito, Nikolas fez 15 viagens bancadas com verba do fundo partidário. A imprensa chegou a reportar que o custo desses voos superou os R$ 3,3 milhões, conforme indicam notas fiscais de transporte emitidas pela empresa AllJet Táxi Aéreo Ltda.

O fundo partidário, utilizado para os pagamentos, é abastecido principalmente por dinheiro público do orçamento federal, distribuído aos partidos para financiar suas atividades políticas.

O que não havia sido revelado até aqui é que um desses voos operados pela AllJet foi realizado em uma aeronave de prefixo PR-MKB, cuja dona é uma empresa que pertence a Nelson Ramon Aguilera Júnior, empresário conhecido por atuar no setor da construção civil.

A informação não era conhecida porque, no sistema de prestação de contas do PL, o pagamento aparece como fretamento de aeronave feito à empresa que opera o serviço aéreo, a AllJet. Essa empresa é responsável pelo voo e pela cobrança, ainda que a aeronave utilizada pertença a um proprietário privado — neste caso, o empresário Aguilera.

No setor de aviação executiva, é comum que proprietários privados coloquem suas aeronaves sob gestão de empresas de táxi aéreo, que passam a operá-las comercialmente e alugá-las a terceiros.

Cerca de dois anos antes de Nikolas entrar no jatinho, Aguilera foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo, no âmbito de uma investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco.

Segundo o MP, Aguilera e outros investigados teriam estruturado um esquema destinado a ocultar e dissimular a origem de valores provenientes da exploração de jogos ilegais, utilizando empresas e atividades comerciais aparentemente lícitas para inserir os recursos no circuito econômico formal.

A denúncia de 2022 também não foi o primeiro episódio do tipo envolvendo o empresário. Aguilera já havia sido acusado em 2017 de integrar uma organização criminosa. Segundo o MP, ele atuava no fornecimento de peças (“noteiros”) para as máquinas caça-níqueis da quadrilha. Os dois casos seguem tramitando na Justiça.

Os documentos de fretamento indicam que o PL contratou a aeronave ligada a Aguilera entre 24 e 25 de agosto de 2024 para um trajeto envolvendo Jundiaí, SP, Belo Horizonte, MG, e São José dos Campos, SP. O valor pago pelo serviço ultrapassou R$ 165 mil.

No voo, estavam Nikolas Ferreira, o secretário parlamentar Andre Dumont Lacerda e Pedro Henrique Gonçalves. A aeronave utilizada nesses deslocamentos é um Learjet modelo 31A, fabricado em 1999 e com capacidade para até oito passageiros, segundo dados do Registro Aeronáutico Brasileiro da Anac.

A aeronave vinculada ao empresário investigado foi, inclusive, alvo de uma medida judicial posterior à viagem de Nikolas. Em outubro de 2025, um ofício da Anac encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, o STF, confirmou o cumprimento de ordem judicial de bloqueio e indisponibilidade da aeronave de prefixo PR-MKB. O documento da Anac não aponta o motivo desse bloqueio.

Depois de tramitar inicialmente na Justiça de Franca, no interior de São Paulo, a defesa de Aguilera argumentou que os fatos descritos na denúncia estariam ligados a empresas sediadas majoritariamente na capital paulista e, portanto, deveriam ser julgados pelo Foro Central Criminal de São Paulo.

Com base nessa discussão processual, o caso foi encaminhado para a Justiça da capital. O processo segue em andamento e permanece aberto, mas tramita em segredo de justiça, o que impede o acesso público aos detalhes mais recentes da investigação e às decisões judiciais posteriores.

LEIA TAMBÉM:

Procuramos o empresário Nelson Ramon Aguilera Júnior, o PL e o gabinete do deputado Nikolas Ferreira. A Aguilera, perguntamos sobre sua relação com a aeronave PR-MKB, a parceria com a empresa AllJet e esclarecimentos sobre os dois processos criminais em que é investigado. Ao PL, questionamos o uso de recursos do fundo partidário para fretar a aeronave e quais mecanismos o partido adota na contratação de voos privados.

Em resposta, o advogado de Aguilera, Ivan Cunha de Sousa, afirmou que a aeronave mencionada está sob gestão da AllJet Táxi Aéreo e que eventuais questionamentos sobre os voos deveriam ser direcionados à empresa. O advogado acrescentou ainda que os processos judiciais citados na reportagem tramitam em segredo de Justiça.

Após a publicação da reportagem, a defesa de Aguilera enviou uma notificação extrajudicial ao Intercept. No documento, o advogado do empresário afirma que seu cliente não possui qualquer ligação com o deputado Nikolas Ferreira e reitera que a responsabilidade pela organização e administração dos voos da aeronave é exclusiva da AllJet. O advogado alega que o envolvimento de Aguilera nas investigações criminais se deu unicamente porque sua empresa, a BV20, é representante no Brasil de uma fabricante global de validadores de cédulas de dinheiro, e que não tem como controlar para quem esses equipamentos são vendidos. Por fim, nega a participação do empresário na exploração de caça-níqueis e afirma que confia em sua absolvição.

Já o gabinete de Nikolas enviou uma resposta afirmando que o PL contratou o serviço de táxi aéreo da AllJet e que, segundo registros da Receita Federal, Aguilera não integra o quadro societário dessa empresa. A assessoria de imprensa não respondeu, no entanto, se o deputado sabia que ele era o proprietário da aeronave utilizada no voo operado pela AllJet nem se sua equipe verifica a titularidade de aviões usados em agendas políticas.

A AllJet confirmou que operou, nos dias 24 e 25 de agosto de 2024, o voo em que esteve Nikolas e sua assessoria. Segundo a empresa, o avião de Aguilera integrou suas atividades de fretamento e segue um modelo comum na aviação executiva, em que aeronaves pertencentes a terceiros são operadas comercialmente por empresas de táxi aéreo mediante contratos firmados com os proprietários e registrados na Anac.

Até a publicação desta reportagem, o Partido Liberal não havia se manifestado.

Atualização: 11 de março de 2026, 18h16
O texto foi atualizado para incluir novo posicionamento enviado pela defesa de Nelson Ramon Aguilera Júnior.

Correção: 11 de março de 2026, 18h16
A versão original da reportagem afirmava que a denúncia oferecida pelo Ministério Público em 2017 era relacionada à exploração de jogos ilegais é lavagem de dinheiro. A informação estava incorreta. Na realidade, essa acusação formal limitou-se ao crime de organização criminosa. O erro foi corrigido.

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