No Centro, fazer xixi depende de uma compra ou de uma porta amiga

Out 1, 2026 - 08:00
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No Centro, fazer xixi depende de uma compra ou de uma porta amiga
Para quem trabalha nas ruas do Centro de Campo Grande, a vontade de ir ao banheiro pode exigir uma caminhada, uma compra ou mesmo alguém conhecido disposto a abrir a porta. Trabalhadores ouvidos pelo Campo Grande News  relatam recorrer ao comércio para usar sanitários, mas nem sempre conseguem acesso sem consumir ou conhecer alguém no estabelecimento. Michel Hiroshi Nakao, de 22 anos, trabalha abordando o público para apresentar o estabelecimento pelo qual é contratado, a três quadras dali. Durante o expediente na rua, precisa voltar ao local de trabalho ou pedir para usar o banheiro de lojas próximas. Segundo ele, a amizade com os funcionários facilita o caminho. “Tem que fazer amizade. É bom que a gente já conhece o povo que trabalha na loja de roupas da esquina. A gente tudo já conhece, aí ele só chega e fala: ‘vamos lá no banheiro lá’”, conta. Quando questionado sobre quem não tem conhecidos no comércio, Michel avalia que a situação fica mais difícil. “Eu acho que sim, é meio difícil, né? Alguém desconhecido chegar lá e ir no banheiro deles.” Para uma pessoa que passa pela região e pede orientação, ele sugere procurar os funcionários de uma das lojas às quais costuma recorrer. A autorização, porém, não é garantida. "Eu falo: pergunta pros meninos ali da loja tal. Dependendo da pessoa, eles ajudam”, diz Michel Hiroshi. O promotor de vendas Douglas Rocha, de 40 anos, também precisa procurar alternativas ao longo do dia. Como trabalha em diferentes pontos da cidade, já conhece lugares aos quais pode recorrer, como supermercados e o Pátio Central. No comércio de rua, conta que o pedido pode vir acompanhado de uma condição. “Agora que eu estou aqui no Centro, eu procurei uma lanchonete, que é mais fácil. Mas o pessoal não deixa a gente usar. Geralmente você tem que comprar alguma coisa, tem que consumir algum produto para estar usando o banheiro”, relata. Douglas considera que faltam opções de acesso público à disposição de quem circula pela região. Para ele, a dificuldade também influencia a escolha de onde fazer compras, especialmente nos dias de calor. “Geralmente as pessoas que querem comprar alguma coisa vão no shopping, porque sabem que lá tem tudo. Ou vão numa galeria mais sofisticada, porque sabem que lá tem banheiro, tem água, tem ar-condicionado. Aqui no Centro não tem essas coisas, então fica difícil você vir pra cá”, avalia. Pedido frequente -  Na loja de eletrodomésticos onde a gerente Damares Ortega, de 29 anos, trabalha, os pedidos para usar o banheiro fazem parte da rotina. Segundo ela, o estabelecimento permite o acesso mesmo quando a pessoa não entra para comprar. "A gente tem uma demanda muito alta mesmo de pessoas, ao decorrer do dia, pedindo acesso ao nosso aqui. E a gente sempre fala que sim, não tem por que negar. Querendo ou não, isso acaba sendo uma dignidade pro ser humano”, afirma. Embora esteja recentemente no local, Damares diz que já percebeu a frequência da procura. Os pedidos não se restringem a um perfil de público. “De todas as idades, desde criança até as pessoas idosas, pessoas com deficiência. Então, assim, é uma demanda bem alta”, conta. Damares reconhece que nem todos os usuários cuidam do espaço e que há contratempos. Ainda assim, considera importante acolher quem chega com essa necessidade, mesmo entendendo que a responsabilidade de atender a demanda não deveria ficar com o comércio. “A gente também não pode negar isso pra uma pessoa, porque a gente nem sabe a condição. A gente atende o povo, atende todas as pessoas que tem aqui no nosso dia a dia. Então, por que não também atender essas pessoas que às vezes precisam do nosso banheiro?”, questiona. Para Damares, permitir a entrada também pode criar uma relação com quem ainda não conhece a loja. A pessoa que pede acesso ao sanitário pode acabar se tornando cliente. “É aquele ditado: uma mão lava a outra.” Sede durante o expediente - A procura por banheiro vem acompanhada de outra necessidade: água para enfrentar as horas de trabalho na rua. Douglas carregava uma garrafa comprada e relatou não saber onde encontrar um ponto gratuito para beber água na região. “Essa aqui eu comprei, na verdade, porque não tem onde você parar. Eu não sei como são os lojistas aqui, se ajudam ou não, mas aí tem que comprar água, né? Não tem onde você tomar água”, diz. Michel também pede a instalação de bebedouros. Para quem trabalha em contato com o público, ele afirma que a sede aparece nas reclamações de outras pessoas que circulam pelo Centro. “Nesse calor que tá, nós trabalhamos com o público, todo mundo reclamando de sede. Seria bom, né? Tipo um bebedouro, um ponto específico”, sugere. Onde estão os banheiros? -  Quando procura por "banheiros públicos" no Google, as opções que aparecem são: Parque das Nações Indígenas, das 6h às 21h; Parque Ecológico do Sóter, das 6h às 20h30; Praça da Vila Margarida, aberta 24h. Outros possíveis prédios públicos não aparecem como opções, como banheiro da Praça Ary Coelho. A reportagem procurou a Prefeitura de Campo Grande para obter informações sobre equipamentos que podem ser acessados pela população na região central, mas ainda não houve retorno. O espaço está aberto para manifestação. Já sobre possíveis bebedouros, a Águas Guariroba foi questionada quanto a essa possibilidade ou projetos na região. Eventuais manifestações serão incluídas na reportagem.

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