No YouTube da PM de Tarcísio, câmeras corporais expõem vítimas e policiais e descumprem normas federais

Agos 28, 2026 - 02:00
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No YouTube da PM de Tarcísio, câmeras corporais expõem vítimas e policiais e descumprem normas federais

Mesmo descumprindo normas do Ministério da Justiça ao usar imagens de câmeras corporais para produzir conteúdo de entretenimento no YouTube, a Polícia Militar do Estado de São Paulo, a PMESP, recebeu mais de R$ 27 milhões do governo federal para ampliar o programa de uso dos equipamentos, sob a condição de obedecer às regras da União. 

Ignorando suas próprias normas internas, a PM utiliza imagens das câmeras para publicar perseguições e outras operações policiais, expondo moradores, suspeitos e os próprios policiais em seu canal oficial.

No ano passado, de cada 10 vídeos postados pela instituição na plataforma, quatro continham deboche, humilhação ou espetacularização da violência. Isso representa 72 dos 174 vídeos do ano, mostra levantamento exclusivo feito pelo Intercept Brasil. Em 2016, menos de 1 em cada 50 vídeos adotava esse tipo de linguagem — apenas 2 entre 102.

O marco da virada de perfil foi outubro de 2023, no primeiro ano do governo de Tarcísio de Freitas, quando o Centro de Comunicação Social da PMESP, o CComSoc, capacitou 13 policiais militares num festival de audiovisual comercial, com dinheiro público e dispensa de licitação. Na volta do evento, a liderança do grupo considerou que o treinamento permitiria “a incorporação de inovações” na forma como a Polícia Militar se comunica. 

A análise do YouTube da PM paulista indica que essa suposta “inovação” inclui a adoção de chamadas como “Foi de arrasta” — gíria da internet para dizer que alguém morreu — e “Ativou 5 estrelas” — referência ao nível máximo de perseguição policial no jogo GTA, sigla para Grand Theft Auto, em que o personagem principal é um criminoso que tenta sobreviver e trabalhar no submundo de uma cidade fictícia. 

“Quase encontrou Jesus” e “It, o ladrão trapalhão” são outras chamadas depreciativas que podem ser encontradas na página da instituição. 

Vídeo mostrando perseguição que terminou com a prisão de dois suspeitos utiliza na capa gíria que significa morte de alguém. Crédito: Reprodução.

A “datenização” do YouTube oficial da PM paulista é incentivada pela audiência. Entre os 1.707 vídeos produzidos entre 2012 e 2025  analisados pelo Intercept, os classificados como agressivos tiveram, na mediana, 24 vezes mais visualizações do que conteúdos institucionais ou de prestação de serviço. Hoje, quatro dos cinco vídeos mais vistos na história do canal são agressivos e, juntos, eles concentram 89% das visualizações do top 5.

Para alcançar essa popularidade, porém, a força que deveria ser responsável pela garantia da lei e da ordem está pisando em seu próprio regramento. O auxílio à fiscalização caberia ao CComSoc, mesmo órgão que é responsável por administrar o canal da instituição no YouTube e a divulgação das imagens de câmeras corporais.

O levantamento feito pelo Intercept analisou os metadados dos vídeos publicados. Para identificar os vídeos agressivos, foram considerados os títulos das publicações e as palavras extraídas das imagens de capa (miniaturas que o YouTube exibe antes de o vídeo ser clicado), em um processo que passou por revisão humana para evitar falsos positivos. 

Thumbnail de vídeo sobre perseguição policial faz referência a jogo de videogame sobre criminosos. Crédito: Reprodução.

A estratégia de comunicação da PM aposta na combinação entre título dos vídeos e da miniatura (thumbnail) para ampliar o engajamento. Quando o título é neutro, mas a capa do vídeo apresenta linguagem de deboche ou agressividade, a mediana de visualizações chega a 78.991. Quando ambos são neutros, o número cai para apenas 3.294. Em outras palavras, vídeos com miniaturas agressivas alcançam uma audiência mediana cerca de 24 vezes maior do que a de vídeos inteiramente neutros publicados pela mesma polícia.

O ponto de virada

Em setembro de 2023, a coronel dirigente da unidade orçamentária responsável pelo CComSoc aprovou uma dispensa de licitação no valor de R$ 11.700. Foi autorizada a compra de credenciais premium para 13 policiais militares da unidade participarem do Expocine 2023, festival de audiovisual comercial realizado entre os dias 3 e 6 de outubro no hotel Renaissance, em São Paulo. A programação incluía expressamente o tema “Entretenimento de impacto social”. A compra foi aprovada em três dias, e a ratificação final foi assinada em 28 de setembro de 2023.

Três meses depois da participação da equipe responsável pela produção audiovisual no evento, a chefia da Agência de Notícias da PMESP entregou um parecer prestando contas sobre a capacitação. “Esse conhecimento recém-adquirido pode ser utilizado para inovar na forma como a Polícia Militar se comunica, seja através de produções audiovisuais internas, documentários educativos ou estratégias de divulgação mais alinhadas com as expectativas do público contemporâneo”, diz o documento, que data de janeiro de 2024. “Enriquecendo narrativas” e “potencializando a divulgação de ações” são algumas das expressões que aparecem ao longo do relatório.

Pago com dinheiro público, o treinamento coincide com o reforço da aposta no sensacionalismo pelo YouTube da corporação.

Entre 2016 e 2019, o emprego de linguagem de confronto nos títulos oscilou entre 2% (2016) e 15,3% (2018) do total dos vídeos da corporação, seguido de picos em 2020 (16,7%) e 2021 (16,8%). Em 2022, o número caiu para 5,8% — o menor índice desde 2016. Em 2023, há uma retomada expressiva da tendência de alta, com os vídeos agressivos alcançando 14% do total. No ano seguinte, o percentual saltou para 27,6%, atingindo o pico histórico de 41,4% em 2025 — o maior índice registrado pelo canal. 

Regulamento ‘foi de arrasta’

Os vídeos sensacionalistas publicados no YouTube da PMESP contradizem as próprias diretrizes da corporação.

A Diretriz PM3-006/02/21, que regularia o uso de mídias sociais pela corporação, trata expressamente da edição de conteúdo — que define como “atividade realizada para alterar, corrigir, aprimorar ou transformar conteúdos ou o formato de produtos” — e veda a criação, edição ou compartilhamento de material depreciativo “à instituição, aos demais órgãos públicos, a autoridades ou a outros militares do Estado”.

Seção Cop em Ação promete mostrar ‘a realidade’ do trabalho policial no YouTube, mas ignora norma sobre preservação da dignidade das pessoas filmadas por câmeras corporais. Crédito: Reprodução.

Já a diretriz PM3-001/02/25, assinada em 4 de julho de 2025, regulamenta o uso das Câmeras Operacionais Portáteis e define a estrutura da Central de Difusão de Conteúdo Audiovisual, ou CDCA, subordinada ao próprio CComSoc.

Esse texto estabelece, no item 6.2.10, que “a edição de cópia de conteúdo audiovisual para fins de divulgação institucional somente poderá ser realizada pela CDCA, devendo ser observados os critérios de preservação da dignidade das pessoas eventualmente identificadas”.

A diretriz é categórica ao determinar que a dignidade das pessoas filmadas precisa ser preservada, mas exemplos de desrespeito a essa regra não faltam no YouTube da instituição.

O canal oficial da PMESP no YouTube mantém uma seção fixa intitulada “COP em ação”, com imagens editadas de câmeras corporais. Um vídeo que acumula mais de 800 mil visualizações, intitulado “Policial militar baleado em Paraisópolis na íntegra”, traz na capa a pergunta “De que lado você está?”.

A comunidade citada, localizada na zona sul da capital paulista, se enquadraria no que a própria diretriz da PM define como “vulnerável”, por apresentar “um conjunto de privações e fragilidades socioeconômicas e de acesso a direitos e serviços”. É essa vulnerabilidade que, pela mesma norma, torna obrigatório o uso de câmera corporal em qualquer incursão policial no território. As imagens deveriam estar sendo gravadas para proteger os moradores, mas acabaram convertidas em conteúdo editorial que os trata como adversários.

Um dos vídeos campeões de visualizações no canal oficial da PMESP no YouTube expõe comunidade e policial ferido. Crédito: Reprodução 

O conteúdo exibe as imagens da câmera corporal de um policial militar que persegue um suspeito por Paraisópolis de motocicleta, envolve-se em luta corporal e é baleado no pescoço. O conteúdo apresenta cenas de sofrimento real, com o militar desarmado, sangrando e clamando por apoio pelo rádio. “Tô baleado, tô perdendo muito sangue”, avisa, enquanto a população local grita ao redor. Além da exposição do rosto e da voz do policial ferido, o vídeo identifica de forma detalhada as vielas de Paraisópolis e civis, comprometendo a privacidade e a segurança do militar e dos cidadãos.

Em outro vídeo, a imagem no thumbnail mostra o suspeito caindo no chão e sendo ridicularizado pela frase “cai cai ladrão”. O conteúdo permite identificar o local exato da ação e o rosto do policial pelo retrovisor, além de mostrar moradias e a fisionomia de cidadãos que nada têm a ver com a perseguição, gerando risco de segurança e estigmatização da comunidade.

Como nesses exemplos, vários dos vídeos expõem não apenas as comunidades e os suspeitos, mas os próprios policiais, colocando os agentes e a população em risco em nome do engajamento.

Contrariando regras internas da corporação, YouTube da PMESP debocha de suspeitos e expõe comunidades. Crédito: Reprodução

A produção audiovisual da corporação também se choca com o Regulamento Disciplinar da Polícia Militar do Estado de São Paulo, instituído pela Lei Complementar nº 893, de 9 de março de 2001. A norma classifica como transgressão de natureza grave a conduta de “publicar, divulgar ou contribuir para a divulgação irrestrita de fatos, documentos ou assuntos administrativos ou técnicos de natureza policial, militar ou judiciária, que possam concorrer para o desprestígio da Polícia Militar, ferir a hierarquia ou a disciplina, comprometer a segurança da sociedade e do Estado ou violar a honra e a imagem de pessoa”.

De acordo com o mesmo regulamento, o superior hierárquico também poderá responder pela transgressão caso tenha permitido, por ação ou omissão, que ela ocorresse. 

A “inovação” adotada pelo YouTube da PMESP também desrespeita as diretrizes federais sobre o uso das imagens de câmeras corporais pelas polícias estaduais. A Portaria MJ nº 648, assinada em 28 de maio de 2024 pelo então ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, proíbe expressamente a divulgação de registros que comprometam “o direito de imagem dos envolvidos, particularmente em situações que lhes causem constrangimento ou os submetam a situações vexatórias”.

O mesmo texto obriga os órgãos de segurança pública a “adequar suas normas institucionais, inclusive disciplinares, à utilização das câmeras corporais, definindo as condutas inadequadas e respectivas sanções”, condicionando o repasse do Fundo Nacional de Segurança Pública ao cumprimento das diretrizes. Não localizamos nenhuma norma disciplinar específica da PMESP sobre uso indevido de imagens de câmeras corporais – e a corporação não nos respondeu sobre isso.

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Procurado pelo Intercept, o Ministério da Justiça afirmou que São Paulo apresentou documentação de cumprimento de regras federais e que “atende” a pasta. O estado de São Paulo recebeu mais de R$ 27 milhões do Fundo Nacional de Segurança Pública para ampliar o programa de câmeras corporais – dinheiro que é atrelado ao cumprimento de regras para o uso de imagens. Apesar da guinada editorial sensacionalista do canal da PMESP no YouTube, a fiscalização federal, segundo a pasta, é feita “por meio das propostas, matrizes de aderência, convênios e registros de execução” – ou seja, análise burocrática, em papel. Ninguém assiste ao canal para verificar o que de fato foi ao ar e como foi exibido.

Até o momento, não há indícios de que a gestão do canal da corporação no YouTube tenha resultado em qualquer punição. Questionada via Lei de Acesso à Informação, ou LAI, sobre procedimentos disciplinares instaurados desde 2023 em razão de conteúdo depreciativo no canal do YouTube, a PMESP respondeu que não tinha os dados organizados sobre o tema e que a pergunta exigia um trabalho adicional desproporcional de levantamento. A resposta contraria a Portaria CORREGPM-1/360/13 do órgão, que determina que cada procedimento disciplinar aberto pela PM seja numerado e rastreável.

A PMESP não respondeu a nenhuma de nossas perguntas.

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