O debate da terceira via volta, mais uma vez, ao foco

Set 5, 2026 - 18:00
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O debate da terceira via volta, mais uma vez, ao foco

 

Por Daniel Chaves

 

O nome que subiu nas pesquisas das últimas semanas é novo; a vaga que ele ocupa não é. Augusto Cury chega a ela pelo caminho menos previsível: não veio de mandato, de máquina partidária nem de rua. Veio de um espaço político diferente das grandes candidaturas cristalizadas. É um dos autores mais vendidos do país, com uma obra construída sobre ansiedade, família, escola e sofrimento psíquico — vocabulário que atravessa faixa de renda, escolaridade e credo sem precisar passar por partido. O reconhecimento nacional dele foi produzido fora da política e, exatamente por isso, chega sem os passivos que a política produz. É um ativo real em si, mas precisa ser contextualizado no todo do agora e da história.

 

A pergunta que interessa, no entanto, não é o tamanho da curva. É de onde vem o voto que ela absorve. As duas hipóteses desenham curvas parecidas nas pesquisas de agosto e produzem consequências opostas em outubro. Se Cury cresce sobre eleitores que já rejeitavam os dois polos e até aqui se declaravam indecisos, o movimento organiza um campo que já existia e não toca em Lula nem em Flávio Bolsonaro. Mas essa hipótese parece remota. Se cresce sobre a base que Renan Santos vinha reunindo, o movimento é interno à terceira via e apenas troca o ocupante da mesma vaga, o que parece mais remota ainda.

 

Terceira via, no Brasil, raramente foi um projeto. Foi um lugar vago. E o lugar existe antes de quem o ocupa – será que nos bate a porta, mais uma vez, uma crise de representação político-partidária da democracia liberal, tal qual 1989 e 2018?

 

Fernando Collor foi o único a atravessar esse vale, inteiro, em 1989, e o fez com legenda montada sob medida e uma estrutura de exposição nacional que nenhum dos herdeiros do lugar voltou a reunir. O sistema político, no entanto, o destronou. Depois dele, o padrão se repete com pequenas variações: o terceiro colocado cresce entre julho e setembro e murcha nas três últimas semanas. Marina Silva chegou a quase 20% em 2010 e a mais de 21% em 2014, e nas duas vezes parou no primeiro turno. Ciro Gomes fez cerca de 12% em 2018, no mesmo pleito em que Geraldo Alckmin, dono do maior tempo de televisão e da maior coligação, terminou abaixo de 5%. Em 2022, Simone Tebet e Ciro somados não passaram de pouco mais de sete pontos.

 

O que essa sequência mostra não é fraqueza pessoal dos candidatos. É o desenho do sistema. Eleição majoritária em dois turnos, com rejeição alta nos dois polos, transforma a última quinzena em cálculo defensivo: a pergunta do eleitor deixa de ser quem ele prefere e passa a ser quem ele quer impedir. A terceira via é a primeira despesa cortada nesse cálculo – mas sistematicamente, quando há uma polarização bem estabelecida, não consegue furar a verdadeira camada de competitividade. Pesa, mas não tanto.

 

Os magos da política, experientes, assintem que não só o gás, mas a estrutura decide as últimas semanas. Palanque estadual, tempo de propaganda, fundo eleitoral, candidato a governador que puxa o nome presidencial no comício e no santinho — nada disso se improvisa entre agosto e outubro. É neste ponto precisamente que essas candidaturas costumam enfrentar um verdadeiro desafio. Daí as perguntas que valem para as próximas semanas. A curva de Cury sobrevive à reta final eleitoral, quando as duas máquinas passam a ocupar o mesmo espaço de atenção que hoje é só dele? Agora, ele não é mais um imprevisto; ele é dois dígitos, é intenção real, e portanto, não mais pedra, senão também vidraça. Um nome sem palanque estadual se sustenta numa eleição em que o voto presidencial é puxado, na ponta, pela disputa proporcional e pelos governos estaduais? O sistema, que além de tudo é histórico, o permitirá? E a pergunta mais desconfortável de todas: uma terceira via que chega a outubro com dois dígitos e sem bancada está construindo poder ou está construindo posição de barganha para o segundo turno? A vaga estará aberta, como esteve em quase todas. A dúvida nunca foi se ela existe – os teóricos da terceira via estão aí há décadas ansiando pelo fim da bipolaridade política sempre presente. É se alguém, desta vez, chega ao fim dentro dela.

 

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