Rede trumpista Rockbridge tentou esconder início de operação no Brasil

Out 1, 2026 - 06:00
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Rede trumpista Rockbridge tentou esconder início de operação no Brasil

A Rockbridge Network, organização fundada pelo vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, tentou esconder o início de sua operação no Brasil. A rede conservadora, porém, mudou de discurso e agora admite ter criado o embrião de uma operação brasileira, embora insista que a ideia tenha sido abandonada.

Nas últimas semanas, uma porta-voz da entidade estadunidense negou categoricamente ao Intercept Brasil, por diversas vezes, que as notícias sobre a existência de uma filial no país teriam fundamento. A fonte afirmou que teria apenas recebido uma proposta vaga, de dois empresários brasileiros, para “fortalecer os laços entre os EUA e o Brasil”, que teria sido recusada. 

Agora, a entidade voltou atrás. À Folha de S.Paulo, a assessoria de imprensa da Rockbridge americana reconheceu que foi aberta uma empresa nos Estados Unidos, a Rockbridge Brazil LLC, “prevendo a possibilidade de levar adiante o negócio proposto”. Segundo a entidade, “a iniciativa não prosseguiu, e a empresa nunca recebeu recursos, entrou em operação ou foi utilizada para qualquer atividade empresarial”.

Novamente questionada pelo Intercept, a Rockbridge enviou nesta segunda-feira, dia 28, um comunicado no qual afirma que teria rejeitado um plano apresentado por brasileiros de abrir uma filial, mas se contradiz ao admitir que abriu uma empresa nos Estados Unidos com esse fim. Na mesma nota, a entidade diz que o objetivo do movimento era criar um “fórum de negócios” e que o envolvimento com política “nunca foi cogitado”.

Sem citar nomes, a rede também acusou brasileiros de fazerem “declarações falsas sobre o seu relacionamento com a Rockbridge” e de criarem “documentos representando ou fazendo referência à Rockbridge sem o conhecimento ou consentimento da mesma”.

Flávio Bolsonaro encontrou-se em maio com o vice-presidente dos Estados Unidos e fundador da Rockbridge, J.D. Vance, acompanhado de seu irmão Eduardo e do influenciador Paulo Figueiredo Filho (Reprodução/Instagram)

Documentos identificados pelo Intercept, porém, contam uma história diferente. Em janeiro — quatro meses antes da abertura da Rockbridge Brazil LLC —, o site oficial da filial coreana da rede já anunciava que o Brasil estava entre os locais para onde a entidade estava se expandindo, ao lado de Japão, Índia, Taiwan e Europa.

O caso da Rockbridge Brasil veio à tona após o candidato à Presidência pelo Missão, Renan Santos, acusar Flávio Bolsonaro de se beneficiar de apoio financeiro clandestino associado a promessas de negócios no setor de terras raras, apontando como elo da campanha com os americanos Tallis Gomes, fundador da Easy Taxi e do G4 Educação. Segundo reportagem do Amado Mundo, também atuaria nessa ligação o empresário Pedro Sang, que teria ajudado a montar o comitê paulista da campanha de Flávio, onde ocuparia uma sala e se apresentaria como “Pedro da Rockbridge”.

A recusa da matriz americana da rede em admitir o plano de operação no Brasil ocorreu após o Intercept perguntar sobre um documento, atribuído à “Rockbridge Network Brasil”, que propunha a criação de um Conselho de Tecnologia para assessorar a campanha de Flávio Bolsonaro e que seria formado, principalmente, por empresários estrangeiros.

Ao Intercept, Pedro Sang reconheceu que o projeto de Conselho de Tecnologia chegou a ser elaborado, mas afirmou que ele “foi só uma ideia, que nunca prosperou nem avançou”. “São papéis que nunca se traduziram em projetos, tanto é que são datados de abril de 2026. Nunca viraram uma reunião, uma discussão, nada”, declarou.

Criada em 2019 por J.D. Vance e pelo investidor Chris Buskirk, sócio de Donald Trump Jr. na gestora 1789 Capital, a Rockbridge reúne empresários, sobretudo do setor da tecnologia, para financiar uma infraestrutura política conservadora. A rede investe em veículos de comunicação, pesquisas eleitorais e operações para mobilizar eleitores, induzindo o voto em candidatos alinhados com o projeto político de Trump. Segundo a Reuters, entre seus doadores estariam nomes como Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir, e Rebekah Mercer, herdeira de um império financeiro e outra das maiores doadoras de Trump.  

Um segundo documento obtido pelo Intercept mostra que o projeto apresentado como “Rockbridge Network Brasil” não se limitava a atrair investimentos. O plano de negócios da entidade previa usar recursos privados para financiar infraestrutura política, fortalecer grupos conservadores e criar núcleos próprios de intervenção em setores como imprensa e universidades brasileiras — um modelo que replica a lógica de influência política desenvolvida pela Rockbridge nos Estados Unidos.

A lei brasileira proíbe candidatos e partidos de receberem, direta ou indiretamente, dinheiro, bens ou serviços com valor econômico provenientes de entidade ou governo estrangeiro. Não está comprovado que a Rockbridge tenha financiado a campanha de Flávio Bolsonaro, mas a suspeita foi alvo de um pedido de investigação apresentado pelo PT ao Supremo Tribunal Federal, o STF.

Conexão Brasil-EUA

A Rockbridge Brazil LLC foi aberta no estado americano do Wyoming em 12 de maio de 2026. O responsável por constituí-la foi Chris Applegate, arrecadador republicano que trabalhou diretamente com J.D. Vance e aparece publicamente ligado à própria Rockbridge. O documento de abertura da Rockbridge Brazil identifica Applegate como organizer — responsável pela constituição formal da empresa, o que não corresponde necessariamente ao posto de dono ou administrador.

Applegate (embaixo, à direita) e Buskirk (segundo à esquerda, na mesma fila) estiveram na Coreia em janeiro; comunicado da visita anunciou que rede estava em expansão para o Brasil (Divulgação/Rockbridge Korea)

Applegate é homem de confiança do atual vice-presidente dos Estados Unidos. No discurso de vitória de sua eleição ao Senado em 2022, Vance agradeceu nominalmente ao arrecadador, membro da sua “incrível equipe de finanças”. Em abril deste ano, segundo reportagem do The New York Times, Applegate aparecia como encarregado de supervisionar a relação de Vance com doadores e atuava como consultor tanto do Comitê Nacional Republicano quanto da Rockbridge.

Em janeiro, quatro meses antes da abertura da Rockbridge Brazil, Applegate esteve na Coreia do Sul ao lado de Chris Buskirk. Na ocasião, o recém-inaugurado braço sul-coreano da organização divulgou um comunicado no qual identificou Applegate como conselheiro sênior da Rockbridge Network. O mesmo documento revela que a rede planejava sua expansão para outros países, citando nominalmente o Brasil.

Registro de criação da Rockbridge Brazil LLC, de 12 de maio deste ano (Reprodução)

O registro societário não revela quem são os proprietários da Rockbridge Brazil LLC, uma vez que a legislação de Wyoming não exige isso. Junto à assinatura de Applegate, o documento informa dados de contato do advogado S. Wade Angus, sócio do escritório Jones Day, com atuação em Nova York e São Paulo.

Angus trabalha há mais de 25 anos com fusões, aquisições e outros negócios internacionais de grandes corporações e tem uma atuação especialmente concentrada no Brasil. Seu currículo inclui operações envolvendo Itaú, Cemig, Cosan e outras companhias brasileiras. O advogado também integra o conselho da Brazilian-American Chamber of Commerce. 

Procurado pelo Intercept, Angus não respondeu ao pedido de posicionamento.

Uma carta para Flávio

A marca “Rockbridge Network Brasil” também aparece em uma apresentação confidencial, sem assinatura, que traz como destinatário o então pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro — embora não haja indícios de que o material tenha sido efetivamente entregue ao presidenciável.

O texto está marcado como “confidencial — uso interno” e propõe a criação de um Conselho de Tecnologia composto por 23 empresários para assessorar diretamente o candidato a presidente e aproximar investidores estrangeiros de um eventual governo Bolsonaro.

O material diz que a estrutura poderia beneficiar Flávio tanto “como ferramenta de campanha” quanto “como plataforma de governo”. Na prática, a oferta dessas vantagens eleitorais poderia garantir a companhias estadunidenses contratos bilionários para explorar as riquezas do Brasil em setores estratégicos para o país, como defesa, terras raras e energia, dentre outros. 

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A apresentação prometia compromissos de investimento antes mesmo de uma eventual posse do candidato do PL e associa a aproximação com empresários americanos à construção de credibilidade para sua candidatura. 

Dos 23 executivos listados como possíveis conselheiros, 19 são estrangeiros. Consultadas pelo Intercept, porém, empresas listadas negam que seus representantes tenham sido consultados ou concordado em participar do plano, e executivos brasileiros simpatizantes da candidatura bolsonarista mudaram sua versão sobre o tema após a repercussão de notícias sobre as negociações com os americanos.

Cidadãos preocupados

No material que apresenta a proposta de criação do Conselho de Tecnologia, o empresário Pedro Sang aparece como diretor-executivo da suposta operação brasileira, responsável pela “articulação e estratégia”. 

Ao Intercept, Sang disse que conheceu a Rockbridge Network nos Estados Unidos em outubro de 2025, por intermédio do amigo de infância André Marinho — candidato do Novo ao governo do Rio e filho de Paulo Marinho, suplente de Flávio Bolsonaro no Senado. 

Seu interesse nesses contatos, afirma, seria aproximar investidores e empresários de tecnologia e atrair investimentos para o Brasil. “Nunca cheguei a me tornar membro da Rockbridge nem exerci qualquer papel formal de representação”, declarou o empresário (leia a íntegra), sem esclarecer por que é chamado de “CEO” do braço brasileiro da organização no texto que propõe o Conselho de Tecnologia. 

O empresário assegura que a ideia da criação de um Conselho de Tecnologia “não prosperou e não teve envolvimento com nenhuma campanha presidencial” — contrariando a apresentação do projeto, que identifica Flávio Bolsonaro como destinatário e dedica uma seção aos possíveis benefícios eleitorais da iniciativa.

Sang afirmou ainda que acompanha a campanha de Flávio apenas como “cidadão preocupado com o futuro” do país, sem função ou vínculo oficial, e chamou de “mentira” a  informação veiculada no portal Amado Mundo em 13 de setembro de que ele teria uma sala no comitê paulista do PL.  

Citado por Sang, André Marinho é outro elo entre os brasileiros e a Rockbridge estadunidense. Ele confirmou à coluna de Guilherme Amado que conheceu Buskirk e viajou a Dallas a convite da Rockbridge com o objetivo de conhecer a rede e analisar uma possível instalação do grupo no Brasil. O político brasileiro chegou ao vice americano através de sua irmã, a cantora Giulia Be, que é casada com um filho de Robert Kennedy Jr., secretário de Saúde de Trump — Kennedy teria articulado um encontro do brasileiro com o vice-presidente americano, em abril.

Em discurso na CPAC, maior conferência de política conservadora do mundo, Flávio Bolsonaro disse que o Brasil poderia ajudar os EUA a se livrarem da dependência em minerais críticos (Reprodução/Instagram)

Um plano elaborado por Marinho e revelado pelo Amado Mundo trazia diretrizes em inglês de como seria uma parceria entre Brasil e Estados Unidos para exploração de minerais críticos e terras raras em um eventual governo de Flávio Bolsonaro. O memorando estratégico prevê acelerar o licenciamento ambiental de projetos de extração mineral, dar tratamento comercial preferencial a parceiros alinhados aos Estados Unidos e buscar financiamento de instituições estadunidenses.

Após a repercussão, Marinho afirmou que o estudo foi uma iniciativa exclusivamente sua, que estava guardado em seu dispositivo e que não foi levado a nenhuma autoridade estadunidense. 

Ao Intercept, o candidato afirmou que o documento era um “exercício hipotético de análise de cenários sobre terras raras”, que não tinha relação com nenhuma campanha nem com a Rockbridge. Também negou ter qualquer relação com a proposta de apresentação de um “fórum empresarial” aos americanos. “Não faço parte da Rockbridge, nunca fui membro e tampouco pretendo me tornar”, completou. 

Nove dias depois de o arquivo ser criado por Marinho, Flávio Bolsonaro subiu ao palco da maior conferência de política conservadora do mundo, a CPAC, em Dallas, para dizer que o Brasil era a solução para os Estados Unidos se livrarem da dependência da China em minerais críticos. Em maio, o candidato se encontrou com Trump, Vance e o secretário de Estado Marco Rubio em Washington.

Apenas networking

Outro nome do entorno de Flávio Bolsonaro que aparece nos documentos da Rockbridge Network Brasil — e que também nega envolvimento nas negociações — é o do fundador da Easy Taxi. Tallis Gomes é citado como um dos quatro brasileiros cotados para fazer parte do Conselho de Tecnologia da organização. 

Em abril, Gomes afirmou no podcast Os Sócios que fazia parte da Rockbridge, fórum no qual discutiria com empresários americanos “para onde que vai o mundo”. Na conversa, apresentou o país como peça de uma disputa entre o Ocidente e o Oriente: chamou o Brasil de “melhor ativo geopolítico do mundo” para os Estados Unidos, considerando que o país poderia fazer contrapeso ao que classificou como “eixo do mal”, numa referência à China. Para sustentar a argumentação, enumerou ativos brasileiros que aparecem no plano do Conselho de Tecnologia: energia, terras raras, água, território para data centers, inteligência artificial e indústria de defesa. 

No mesmo podcast, Gomes ligou essa agenda diretamente a Flávio Bolsonaro. Disse ter se encontrado com o senador “dezenas de vezes” para discutir esses temas e afirmou que, nessas conversas, Flávio lhe pedia para que colocasse as propostas por escrito para incorporá-las ao plano de governo. “Todas as conversas que eu tive com o Flávio, o Flávio está disposto a fazer isso pro Brasil”, afirmou. 

Em 30 de março, foi noticiado na imprensa estadunidense que Gomes esteve entre os presentes na cúpula de primavera da Rockbridge no hotel Four Seasons de Nashville, no Tennessee. O evento teve J.D. Vance como convidado principal, cerca de 250 doadores e ingresso de no mínimo 100 mil dólares por pessoa — o que equivale a mais de meio milhão de reais.

Pouco mais de um mês depois, em 13 de maio, o empresário brasileiro voltou a aparecer publicamente ao lado de uma das principais figuras da rede. Durante um almoço organizado pelo G4 Business e pelo Experience Club no Plaza Hotel, em Nova York, ele foi o moderador de uma conversa com Chris Buskirk. O encontro com o cofundador da Rockbridge ocorreu durante a Brazil Week e tratou de investimentos, tecnologia, inteligência artificial e oportunidades econômicas entre Brasil e Estados Unidos.

Ao Intercept, porém, o empresário afirma que participa da rede estadunidense “exclusivamente como membro de um grupo de networking formado por empreendedores e investidores do setor de tecnologia”, sem função executiva, de gestão ou de representação. Gomes nega ter participado da elaboração, revisão ou distribuição de qualquer plano do Conselho de Tecnologia, incluindo a apresentação de documentos dessa natureza a terceiros, no Brasil ou nos Estados Unidos.

O empresário também negou que fale com Flávio Bolsonaro, sua campanha ou André Marinho sobre temas relacionados a financiamento, arrecadação ou articulação eleitoral (leia a íntegra). 

A elite conservadora contra o globalismo

A proposta de criação do Conselho de Tecnologia indica que o critério para a escolha dos conselheiros é reunir a “elite conservadora”, gente que já “se posicionou politicamente” e que compartilha a visão de que o Ocidente precisa vencer a corrida tecnológica contra a China.

Um dos nomes previstos para o conselho é o do próprio fundador da Rockbridge, Chris Buskirk, apresentado no documento apenas como “publisher da revista American Greatness”. O poder de Buskirk, porém, vai além de sua atuação no mercado editorial. Sua gestora, a 1789 Capital, comprou participação na fabricante de ímãs de terras raras Vulcan Elements. Três meses depois, a Vulcan recebeu um empréstimo de 620 milhões de dólares do Pentágono, após pedido de um conselheiro da Casa Branca, segundo a ProPublica. Parlamentares democratas apuram se a proximidade com a família do presidente, sócia da 1789 por meio de Donald Trump Jr., favoreceu a liberação do dinheiro público.

A 1789 também é apontada como investidora de cerca de 300 milhões de dólares na Polymarket, plataforma que teve seus perfis em redes sociais derrubados no Brasil neste mês após uma reportagem do Núcleo denunciar que o site estaria promovendo apostas nas eleições brasileiras, o que é proibido pela legislação.

A aproximação entre Buskirk e o bolsonarismo começou muito antes das eleições deste ano. Em março de 2019, o americano jantou com Jair Bolsonaro na residência do embaixador do Brasil em Washington, Sérgio Amaral. 

Em 2019, Bolsonaro participou de jantar em Washington oferecido a “formadores de opinião”; fundador da Rockbridge, Buskirk estava entre os convidados (Divulgação/PR)

Também estavam à mesa Steve Bannon, Olavo de Carvalho, Eduardo Bolsonaro, Paulo Guedes, Sergio Moro e outros nomes do primeiro escalão do governo. O encontro havia sido organizado para reunir Bolsonaro com o que foram chamados de “formadores de opinião”. A lista de convidados foi montada pelo então chanceler Ernesto Araújo e pelo diplomata Nestor Forster.

Três meses depois, Buskirk já não estava apenas num encontro privado. Em 10 de junho de 2019, foi convidado a falar dentro do Palácio Itamaraty, em Brasília, em um seminário sobre “globalismo” promovido pelo Ministério das Relações Exteriores e pela Fundação Alexandre de Gusmão, a Funag.

O encontro foi aberto por Ernesto Araújo, que falava em um “novo” Itamaraty, e teve entre os participantes Filipe Martins, então assessor internacional de Bolsonaro. A programação registra Buskirk como responsável pela palestra “Como o globalismo ameaça a soberania nacional, a autodeterminação e a liberdade individual”. No palco, Buskirk tratou Trump e Bolsonaro como exemplos de líderes nacionalistas e patriotas que, segundo ele, “rejeitam a ideia de que nações e povos devam abrir mão de sua soberania em favor de organizações supranacionais e transnacionais”, citando como exemplo – ironicamente – as grandes corporações. 

Brasil de bandeja

Sete anos depois da palestra de Buskirk defendendo a soberania, o plano de criação de um Conselho de Tecnologia coloca o Brasil na direção oposta. E a análise dos nomes reunidos no documento que propõe o colegiado dá pistas dos setores prioritários para os interesses americanos no Brasil. 

No campo de energia, o único conselheiro doméstico citado no documento é Mario Araripe, da Casa dos Ventos, que tem a francesa TotalEnergies como sócia e está à frente do projeto controverso de um data center para o TikTok em Caucaia, no Ceará. A proposta do Conselho de Tecnologia prevê multiplicar a presença de datacenters no Brasil, vinculados a projetos de energia renovável, sobretudo no Nordeste.

Como o Intercept vem mostrando em uma série de reportagens, os projetos de data center em curso no Brasil têm atropelado os alertas sobre os impactos socioambientais dessas estruturas — afetando comunidades tradicionais e ameaçando o abastecimento de água e o uso racional da energia renovável.

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Já na frente de segurança pública o projeto de conselho cita a Palantir, gigante que fornece tecnologia usada em contexto de guerra pelo Departamento de Guerra (antigo Departamento de Defesa) americano. Segundo investigação da newsletter Noites Húngaras em parceria com a ONG Ctrl+Z, uma comitiva ligada ao cofundador da empresa, Peter Thiel, esteve no Brasil em maio deste ano.

Ainda nesse campo, o documento senta à mesma mesa o brasileiro David Peixoto, da PAX AI, e Garrett Langley, da Flock Safety. Atuando uma no Brasil e a outra nos Estados Unidos, as duas empresas têm um investidor em comum, a Greenoaks, e atuam na venda de sistemas que integram câmeras de vigilância, registros policiais e bases criminais para investigação. 

Em nota, a PAX AI frisou que Peixoto “não integra e nunca integrou o Conselho de Tecnologia da Rockbridge Network Brasil”. A empresa disse também que o empresário não foi convidado para o posto e “não aceitou qualquer posição naquela entidade”, motivo pelo qual “a informação de que ele é conselheiro é incorreta”.

Lista de membros internacionais propostos para o Conselho de Tecnologia no documento atribuído à Rockbridge Network Brasil (Reprodução)

Além dele, três empresários estrangeiros, procurados pelo Intercept, também disseram desconhecer sua participação no conselho. A resposta mais detalhada veio da XBOW, empresa de cibersegurança. Sua assessoria informou que Oege de Moor sequer foi convidado a integrar a estrutura. Disse ainda que nem ele, nem a companhia sabiam da inclusão de seus nomes em material destinado a um candidato brasileiro à Presidência. “Qualquer inclusão de seu nome foi feita sem seu conhecimento ou consentimento”, afirmou a XBOW.

A Legora, que comercializa um sistema de IA direcionado ao campo jurídico, também rejeitou a participação atribuída a seu executivo, Max Junestrand. “Não temos ideia do que seja isso. Max não concordou em ser membro desse conselho”, respondeu Jesper Wigardt, responsável pela comunicação da empresa.

Já um representante de Scott Nolan, CEO da startup de combustível nuclear General Matter, informou que ele desconhecia o conselho proposto para apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro e que seu nome havia sido incluído sem consentimento. Acrescentou que Nolan nunca havia se encontrado com o candidato nem com os autores da apresentação.

Um porta-voz de Chris Power, da Hadrian — empresa estadunidense que opera fábricas automatizadas por inteligência artificial voltadas aos setores aeroespacial e de defesa — também negou que o executivo soubesse da inclusão do seu nome no conselho.

Muitas das áreas contempladas no Conselho de Tecnologia dependem de contratos com o estado, então uma canetada presidencial poderia valer a esses empresários contratos bilionários e até ter impacto direto na soberania nacional, já que os agentes estrangeiros poderiam ganhar acesso a dados sobre a população brasileira e capacidade de intervir em temas como vigilância policial, energia, minerais estratégicos e defesa.

Um projeto pós-eleição

Outro documento que leva a marca “Rockbridge Network Brasil” obtido pelo Intercept é um plano de negócios para 2026, datado de meados de abril e marcado como “não público”. Ele apresenta o que seria a operação brasileira da Rockbridge como um “fundo de venture capital político”, onde as anuidades dos membros seriam destinadas à construção de uma plataforma de investimento em projetos políticos.

Entre os focos prioritários desse investimento, segundo o material, estariam a imprensa, as universidades e o Legislativo, setores considerados “em desequilíbrio”, para os quais seriam propostos microconselhos temáticos. 

No caso da imprensa, onde o documento vê uma “narrativa dominada por veículos de esquerda”, caberia ao conselho setorial “investir, qualificar e organizar a mídia independente conservadora” e ampliar seu alcance geográfico. 

Um segundo conselho, voltando aos jovens e às universidades, teria como objetivo criar um contraponto no ambiente acadêmico, que hoje estaria “monopolizado” e com “formação conservadora ausente”.

Já para a atuação legislativa, tida como “desarticulada”, o documento prevê uma estrutura que forneceria staff e análise de dados aos parlamentares de direita para “melhorar a efetividade do campo”. Quando não houvesse projeto adequado em uma dessas áreas, diz o plano, a proposta viria da Rockbridge.

O modelo tem precedentes na atuação da Rockbridge nos Estados Unidos, revelada por uma investigação da Reuters publicada em 2024. De acordo com documentos consultados pela agência, a Rockbridge estadunidense consiste em um conjunto de comitês políticos, que atuaram em operações como o financiamento de reportagens investigativas de direita, o custeio de pesquisas de opinião, a mobilização de eleitores em estados decisivos e o incentivo ao ativismo político entre frequentadores de igrejas, dentre outras.

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