Crise do clima abala alimentação e saúde
O super El Niño, apontam os estudos, vai causar impactos na agricultura. Os efeitos serão distintos sobre as regiões do Brasil e, em Minas Gerais, as altas temperaturas podem comprometer a produtividade das lavouras, agravando uma situação que já exige atenção. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), por exemplo, o cinturão de hortas que abastece boa parte do consumo da capital já foi mais verde.
“Muitas hortas foram abandonadas por causa da falta de água. Loteamentos nas cabeceiras de muitos córregos e os incêndios acabaram com a água deles”, diz Célio Santos, agricultor que ainda resiste com a água que ele considera ser “a conta” para manter a sua horta de rúculas e mostardas em Ibirité, na Grande BH. “Se essa secura toda (do Super El Niño) vier, pode ser o fim da minha horta e de muitos mais”, teme.
Com a seca, a irrigação precisa ser ampliada, justamente em um cenário de menos chuvas para manter a vazão dos recursos hídricos. “Já aconteceu de a gente ter seca aqui e foi complicado. A nossa água vem da montanha, chega igual água mineral. A gente que planta e que vive disso fica preocupado se tiver uma seca forte. A planta que mais sofre é a cebolinha. Porque ela tem de molhar todo dia se não seca, amarela toda e perde”, afirma Valter Santiago da Cunha, que arrenda terreno de horta há 25 anos em Ibirité, onde ele e os parentes plantam salsinha, cebolinha, coentro, mostarda, rúcula, alho-poró e cebola de cabeça roxa. “Se ficar mais seco mesmo e sol muito forte, tem de aumentar a molhação. Molhar duas vezes no dia. Ao menos 15 a 20 minutos tem que molhar. Senão perde, não cresce, seca e morre”, conta Valter.
MODELOS REGIONAIS
Do agronegócio ao abastecimento, os efeitos de um Super El Niño no estado podem ser igualmente prejudiciais, com impactos nos preços dos alimentos e na saúde pública com o aquecimento e prolongamento dos dias de baixa umidade relativa do ar. É o que mostra a simulação de impactos do fenômeno que a reportagem do Estado de Minas utilizou pelas modelagens do IPCC (ONU) sob a orientação do professor Antoniel Fernandes, da PUC Minas. A simulação baseou-se na mais recente geração de modelos climáticos mundiais (CMIP6). Ao projetar um cenário moderado de aquecimento global de +2°C.
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Um retrato do que pode ocorrer no Triângulo, Uberlândia poderia sofrer com a ampliação de suas médias de temperaturas máximas saltando de 31,5°C para 34,2°C, semelhante ao calor equatorial constante de áreas amazônicas como Manaus, que tem médias de 34°C no período.
Impactos semelhantes aos que se abateriam sobre o Noroeste do estado, onde Paracatu, por exemplo, onde as médias máximas podem passar de 33°C para 35,7°C, um clima próximo ao do Tocantins, onde Palmas chega a ter normalmente 35,5°C no período.
O Triângulo e o Noroeste são as expressões mais fortes do agronegócio mineiro. Um incremento previsto de 15 a 17 dias consecutivos de estiagem fragiliza o calendário agrícola. A queda de até 28% na chuva de inverno/primavera atrasa o plantio da soja e do milho.
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“A gente que planta e que vive disso fica preocupado se tiver uma seca forte”
VALTER SANTIAGO DA CUNHA
Produtor em Ibirité
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O calor aumentando em 2,7°C amplia a evapotranspiração, secando o solo mais rápido e exigindo mais irrigação a reservatórios já pressionados trazendo riscos de desabastecimento e racionamento de água. “As chuvas ficam concentradas também em dezembro, janeiro e fevereiro. E isso pode gerar impactos e atrasos na dinâmica da produção da lavoura, no fornecimento de água para o gado”, alerta o professor Antoniel Fernandes.
O Norte de Minas pode experimentar as mais altas temperaturas do estado de acordo com os dados da modelagem do Super El Niño. Na primavera, Montes Claros, por exemplo, pode experimentar médias das máximas sendo aumentadas de 33,5°C para 36,4°C, igualando aos dias de calor extremo do Piauí, onde Teresina tem média de 36,5°C no período.
A região Norte, já naturalmente semiárida, enfrentaria o pior cenário de déficit hídrico (-33,6% de chuva entre junho e agosto) e o maior salto de temperatura (+2,9°C de setembro a novembro). O risco de colapso do abastecimento humano é preocupante. O calor extremo prolongado eleva os casos de insolação, desidratação e agravamento de doenças cardiovasculares, podendo sobrecarregar o SUS.
A agricultura familiar de subsistência pode ser inviabilizada em áreas mais remotas. A pecuária extensiva sofre com a degradação das pastagens e a seca das aguadas, podendo resultar em aumento da mortalidade do rebanho e perda de peso dos animais. “Essa é também a região mais seca e vulnerável do ponto de vista socioeconômico de Minas Gerais e o El Niño a deixará mais quente e seca”, afirma Fernandes.Extremos do clima impõem dupla emergência ao semiárido
SECAS E TEMPORAIS
O Sul de Minas e a região dos Campos das Vertentes terão secas e picos de calor semelhantes. Para o sul cafeicultor a situação é agravada pelas anomalias climáticas se darem justamente durante a florada do café e a combinação de seca na primavera (-9% a -13%) com picos de calor (+2,6°C) atinge a planta podendo causar o abortamento das flores, reduzindo a produtividade da safra seguinte.
Em Pouso Alegre, no Sul de Minas, a média das temperaturas máximas se elevaria de 28,5°C para 31,1°C, semelhante ao calor litorâneo de Recife na primavera. Já Barbacena, nos Campos das Vertentes, conhecida pelo frio, perderia sua identidade e passaria a ter o clima quente paraibano, a exemplo de João Pessoa, que registra médias de 29,5°C no período de setembro a novembro.
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R$ 391,1 milhões
é o investimento da Copasa no primeiro trimestre de 2026 na rede de abastecimento
80%
é a expectativa de bases municipais estruturadas da Defesa Civil em Minas Gerais
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No Vale do Rio Doce, pelas simulações para o Super El Niño, Governador Valadares teria as médias da primavera elevadas de 32,5°C para 35,1°C, a mesma temperatura sentida nas tardes amazônicas e equatoriais de Roraima, em locais Boa Vista, onde as médias são de 35°C de setembro a novembro.
A elevação de +2,6°C no fim do ano, combinada com os temporais de verão (+12,1% na precipitação máxima diária), pode criar uma incubadora para mosquitos vetores. O risco é de epidemias de dengue, zika e chikungunya. Já assoreada e ambientalmente fragilizada, a bacia do Rio Doce perde capacidade de diluição de poluentes na primavera seca (-23,9% de chuva). No verão, as chuvas extremas lavam as encostas degradadas, podendo causar enchentes na calha do rio.
AÇÕES PREVENTIVAS
A Copasa informa que mantém o monitoramento dos cenários climáticos e de consumo, além de fazer investimentos permanentes em infraestrutura hídrica, como medida preventiva para garantir a regularidade do abastecimento. “Nos últimos anos, a companhia vem realizando uma série de obras e intervenções operacionais com foco no fortalecimento da segurança hídrica. Somente nesse primeiro trimestre de 2026 já foram investidos R$ 391,1 milhões em obras estruturantes nos sistemas de abastecimento de água da empresa”, informa a Copasa.
Entre as ações, a empresa de saneamento e abastecimento presente em todas as regiões mineiras destaca a ampliação e modernização do Sistema Rio Manso, na RMBH, com a implantação de novas adutoras, ampliação da capacidade de tratamento, reservação e a instalação de tecnologia avançada na Estação de Tratamento. O Sistema Rio das Velhas está recebendo um sistema de ultrafiltração na ETA Bela Fama.
“Além dessas obras, a Copasa iniciou a operação de uma nova unidade de captação de água no Rio Paraopeba com o bombeamento inicial de até 2 m³/s de água para a ETA Rio Manso para recompor a capacidade de produção do Sistema Paraopeba e preservar os estoques de água dos reservatórios diante de cenários de escassez hídrica”.
No interior, a Copasa afirma ter feito obras que “garantiram o abastecimento regular em cidades que historicamente sofriam com intermitências”, com a implantação de novos reservatórios, perfuração de poços, novas captações e estações elevatórias.
No Norte de Minas, o destaque é a implantação da adutora do Sistema São Francisco, com 90 quilômetros de extensão, “um backup estratégico para a região de Montes Claros para atravessar as estiagens ano a ano”.
O Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) informou que mantém ferramentas permanentes de monitoramento, como o Sistema de Meteorologia e Recursos Hídricos de Minas Gerais (Simge), a Sala de Situação de Recursos Hídricos, a rede hidrometeorológica estadual e o Monitor de Secas, que permitem acompanhar a evolução das condições climáticas e hidrológicas, emitir alertas e subsidiar a tomada de decisões pelos órgãos estaduais e municipais.
“As áreas que historicamente demandam maior atenção durante os períodos de estiagem são as regiões Norte, Noroeste, Jequitinhonha e parte do Vale do Mucuri, devido à maior vulnerabilidade hídrica. No entanto, os efeitos das mudanças climáticas e dos eventos extremos têm ampliado a necessidade de monitoramento em todas as regiões do estado. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o abastecimento público é acompanhado continuamente pelos órgãos gestores e concessionárias responsáveis. Embora a situação atual não indique necessidade de medidas restritivas, a gestão preventiva dos recursos hídricos permanece fundamental, especialmente durante os meses mais secos do ano”, afirma o órgão.
ATENÇÃO AOS MUNICÍPIOS
“A prevenção é a principal ferramenta para reduzir os impactos do El Niño. Estamos monitorando os cenários climáticos e trabalhando junto aos municípios para fortalecer a preparação e a proteção da população”, explica o coronel Paulo Roberto Rezende, coordenador estadual de Defesa Civil.
Nos últimos anos, o governo de Minas informou ter investido mais de R$ 96 milhões na aquisição de 526 kits de equipamentos destinados aos municípios. Cada kit é composto por viatura 4x4, notebook, trena digital e coletes reflexivos. Estava previsto para o último mês de junho 683 cidades contempladas, representando mais de 80% das unidades municipais da Defesa Civil estruturadas.
“Outro avanço foi a criação do Centro de Inteligência em Defesa Civil (Cindec), inaugurado em 2024 com investimento de R$ 12,5 milhões. O espaço reúne tecnologia, análise de dados e equipes especializadas para monitoramento contínuo das condições meteorológicas, hidrológicas e geológicas em todo o território. O monitoramento constante ocorre por meio de um trabalho interagências, com apoio operacional do Igam/Semad, Cemig e outros órgãos”, informa o governo.
O Estado afirma que também conta com os Planos Estaduais de Enfrentamento ao Período Chuvoso e a Seca e Estiagem, além da capacitação permanente dos agentes que atuam na gestão de riscos. “Somente no último ano, mais de 6 mil agentes de defesa civil foram capacitados, alcançando municípios mineiros e outros sete estados da federação”.
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