O Brasil já não ostenta mais o título de pátria de chuteiras de chuteiras
* Rômulo Rodrigues
E no passo da estrada a copa do mundo não é mais uma competição esportiva; há tempo que é apenas uma vitrine onde desfilam manequins que representam a dominação do capitalismo financeiro sem cerimônia para decidir os estágios de quem deve chegar ao olimpo e quem vai ficando pelo caminho a cada etapa.
Para entender em que pé anda a hierarquia do futebol basta analisar o telefonema do presidente dos EUA para o homônimo da FIFA ordenando que uma cláusula pétrea do regulamento, o cartão vermelho, aplicado pelo árbitro da partida e não questionado pelo VAR, mesmo que em um jogador identificado como dos povos originários, que o pretenso manda chuva odeia, para que a decisão valesse menos que um papel sujo de esterco fosse parar na lata do lixo da competição.
Como a lei do retorno não anda a pé, a medida abrupta de Donald Trump foi desmoralizada no jogo seguinte com o troco pela não tão expressiva seleção da Bélgica que aplicou quatro palmadas no traseiro no mais arrogante entre todos os líderes mundiais que, ao se ver massacrado em campo que jogara água no chope das comemorações do quatro de julho, usou do seu poderio para invadir qualquer território e mandou despejar bombas no Estreito de Ormuz.
O argumento que prevaleceu soprado por traidores da pátria, para a ordem dada à entidade máxima do futebol foi que o árbitro da partida era um brasileiro que fora visto vestindo uma camisa vermelha na calçada da Catedral da Sé onde foi rezada a missa para um comunista morto por tortura a mando de ditadores militares, fato que a mídia amordaçada desde 1º de abril de 1964 não resgatou as contradições do fato; o jogador expulso era oriundo das nações africanas e a seleção que punitiva do absurdo praticado foi nada mais, nada menos a Bélgica, aliada estadunidense da barbárie contra o herói congolês, que teve seu cadáver esquartejado e dissolvido em ácido sulfúrico para que nunca mais aparecesse outro semelhante. Mas, foi uma réplica de expressão popular que assombrou os dois países e chocou o mundo, ressurgindo em jogos do seu país, dizendo; Patrice Lumumba, vive.
E o Brasil que perdeu a patente de pátria de chuteiras após o fracasso contra um país de apenas cinco milhões de habitantes, como está? Está brilhando em outras dimensões e em breve terá superado o estágio seguinte de país do complexo de vira lata do qual enorme quantitativo de descerebrados se orgulha de ser único no mundo, onde retratos visíveis em paredes de quartos ainda podem servir de referências para medir homens pelo caráter e não pela habilidade no trato da bola e interpretar o que disseram o treinador e o craque do Egito alertando que o mundo olhe para a Palestina.
Mais do que desabafos foram gritos de alerta contra o silêncio barulhento de quem se omite contra genocídios, no mesmo tom que silencia contra crimes de racismos e ideológicos numa competição mundial de futebol, sem destacar o massacre de 162 crianças em uma escola em Teerã, proibição do Haiti de mostrar o símbolo da sua independência no uniforme da seleção e o assassinato do embaixador da paz do Egito que reunia palestinos para assistir jogos do seu país, junto com outros convidados.
No fracasso do Brasil não cabe choro nem vela, nem sequer culpar uma desgastada camisa amarela: o que cabe é entender que o Deus Mercado da bola impôs ao seu mais relevante súdito do futebol, ser apenas um produtor de commodities chamadas de novos talentos; exportados como matéria prima para serem beneficiados nos centros dos impérios e depois de agregarem valor terem as personalidades modificadas para não mais se identificarem com suas origens, viverem momentos de humilhações impostas por países colonizadores como se fossem apenas marcas registradas, por terem saídos do país de origem ainda adolescentes e perdido a capacidade de se indignar.
O sinal de alerta foi ligado e o Brasil não precisa ser respeitado mundo a fora porque ainda produz gente com habilidade nas pernas no trato da bola. O que deve ser captado é o avanço no bloco dos países mais desenvolvidos porque faz tremular a bandeira da paz, porque é pioneiro e grande ensacador de vento, porque ocupa a posição nº 88 no ranking de carga tributária, cujos primeiros lugares são países nunca citados, mas, que financiam os analistas de mercado, que já esteve na 6ª posição entre as maiores economias do mundo, caiu para 12ª, já está na 8ª e logo estará de volta à 6ª, tinha saído do mapa da fome da ONU, voltou junto com o golpe de 2016 e já está fora com a soberania e caminha para ser mais forte com as políticas de inclusão pelo direito e pela renda e está perto de dar o grande salto com a derrubada da escala 6×1, sem reduzir salários em que pese deixar a dondoca da FIESP sem ir ao salão de beleza aos sábados porque na sua visão turva vão estar fechados.
Ela e o velho cansado que já dirigiu sua instituição não aceitam que trabalhadores tenham lazer e sequer que o Brasil venha ter tecnologia para explorar e beneficiar seus minerais críticos das terras raras e passar a ser uma potência energética; quando isso acontecer, veremos que nossos jovens craques deixarão de ser exportados e o Brasil vai alargar as camisas da seleção para caber tantas estrelas.
Rômulo Rodrigues, sindicalista aposentado, é militante político
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