Regulação da saúde opõe prefeito José Ronaldo e deputado Robinson Almeida e expõe responsabilidades compartilhadas em Feira de Santana
O deputado estadual Robinson Almeida (PT) rebateu, neste domingo (12/07/2026), as críticas do prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo de Carvalho (União Brasil), ao sistema estadual de regulação da saúde. Ao afirmar que o gestor municipal “não tem autoridade moral” para responsabilizar o Governo da Bahia pelos problemas da assistência de alta complexidade, o parlamentar cobrou a ampliação da atenção básica e a implantação de um hospital municipal. O confronto, porém, reúne críticas que podem ser simultaneamente procedentes: enquanto a Prefeitura responde diretamente pela organização da atenção primária, o Estado coordena a regulação intermunicipal e mantém parcela decisiva da rede regional de média e alta complexidade.
Robinson Almeida atribui agravamento de doenças à baixa cobertura da atenção básica
A manifestação ocorreu depois de José Ronaldo voltar a criticar a regulação estadual durante entrevista ao programa Frequência Baiana, ao lado do prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil). O chefe do Executivo feirense cobrou do governador Jerônimo Rodrigues (PT) medidas para reduzir as filas de pacientes que aguardam internações, exames, cirurgias e atendimentos especializados.
Robinson Almeida reagiu concentrando sua argumentação nas atribuições municipais. Segundo o deputado, Feira de Santana teria cobertura de atenção básica inferior a 40%, além de enfrentar falta de médicos, medicamentos e continuidade assistencial em determinadas comunidades. O índice foi apresentado pelo parlamentar, mas precisa ser acompanhado da identificação da base estatística e da metodologia utilizada, uma vez que os indicadores de cobertura da Estratégia Saúde da Família e de cobertura potencial da atenção primária podem adotar critérios diferentes. A Secretaria da Saúde da Bahia disponibiliza séries municipais sobre a cobertura estimada da Saúde da Família, inclusive com dados atualizados até 2026.
“Quem não cuida da atenção primária, preventiva, não tem moral para criticar a alta complexidade, porque muitos pacientes evoluem para casos graves, como hipertensão, diabetes e AVC”, declarou Robinson Almeida.
A premissa técnica da crítica encontra respaldo na organização do Sistema Único de Saúde. A atenção primária constitui a porta preferencial de entrada do SUS e deve atuar na prevenção, no diagnóstico inicial, no acompanhamento de doenças crônicas, na vacinação, no pré-natal e no encaminhamento dos pacientes para serviços especializados. Quando essa estrutura é insuficiente ou descontínua, cresce a possibilidade de agravamento de condições clínicas e de procura por unidades de urgência e hospitais.
A responsabilidade municipal, contudo, não significa que todos os especialistas devam estar permanentemente presentes em cada Unidade Básica de Saúde. O dever da rede local é assegurar equipes de atenção primária, acompanhamento regular, acesso a exames e medicamentos essenciais e encaminhamento organizado aos demais níveis assistenciais.
Prefeitura apresenta reformas e crescimento do atendimento municipal
A crítica de Robinson Almeida precisa ser confrontada com medidas divulgadas pela administração municipal desde o início do atual mandato. A Prefeitura informou ter reformado 36 unidades de saúde desde 2025 e projetou a recuperação de outras 21 até o fim de 2026, o que elevaria para 57 o número de estruturas alcançadas pelo programa de requalificação. Também foram anunciadas novas unidades básicas em comunidades como Registro e Papagaio.
Dados apresentados pela gestão municipal indicaram ainda aumento de 147% nos atendimentos de demanda espontânea da atenção básica, que teriam se aproximado de 300 mil consultas, além de crescimento nos procedimentos especializados e no acompanhamento pré-natal. Esses números demonstram ampliação de atividade, mas não encerram a discussão sobre cobertura territorial, composição das equipes, tempo de espera, disponibilidade de medicamentos e continuidade do cuidado.
Em termos de interesse público, a avaliação da atenção básica não pode depender exclusivamente do número bruto de consultas ou de unidades reformadas. É necessário considerar a proporção da população efetivamente coberta, a regularidade das equipes, a existência de áreas descobertas, os indicadores de vacinação, o controle de hipertensão e diabetes, a mortalidade evitável e o tempo para acesso a consultas e exames.
Crítica de José Ronaldo alcança responsabilidade direta do Governo da Bahia
Embora Robinson Almeida tenha fundamento ao cobrar a rede municipal, a crítica de José Ronaldo à regulação também se dirige a uma atribuição efetivamente estadual. Cabe ao Governo da Bahia organizar os fluxos intermunicipais, administrar a Central Estadual de Regulação e coordenar o acesso a leitos, procedimentos e unidades de referência que atendem pacientes de diversos municípios.
A Central Estadual de Regulação funciona durante 24 horas e processa solicitações de internação, leitos de terapia intensiva, cirurgias, exames de alta complexidade e transferências hospitalares. A Secretaria da Saúde informou ter solucionado mais de 212 mil demandas urgentes em 2025 até o período divulgado. Em abril de 2026, uma operação concentrada teria regulado 1.388 pacientes, dos quais 44 foram destinados ao Hospital Geral Clériston Andrade.
O volume de atendimentos comprova a dimensão do sistema, mas não elimina a existência de filas, recusas temporárias, insuficiência de leitos ou demora para determinados procedimentos. Para que o debate público seja objetivo, o Estado precisa divulgar indicadores regulares por região, especialidade e nível de urgência, incluindo o tempo mediano de espera, o número de pacientes ainda pendentes, as razões das negativas e os desfechos clínicos.
Assim, a cobrança do prefeito por maior eficiência na regulação não pode ser descartada como simples transferência de responsabilidade. A disponibilidade de leitos de alta complexidade, a capacidade dos hospitais estaduais e a gestão dos fluxos regionais são obrigações do Governo da Bahia. Do mesmo modo, dificuldades da atenção primária municipal não justificam atrasos excessivos ou insuficiência da rede estadual.
Feira de Santana ainda não possui hospital municipal geral
Robinson Almeida também criticou o histórico de José Ronaldo por não ter implantado um hospital municipal geral na maior cidade do interior baiano. Feira de Santana mantém o Hospital Inácia Pinto dos Santos, conhecido como Hospital da Mulher, voltado principalmente à assistência materno-infantil e à saúde feminina, mas ainda não dispõe de uma unidade municipal geral com perfil equivalente aos grandes hospitais urbanos.
Nesse ponto, a cobrança do deputado alcança uma lacuna concreta. Entretanto, a declaração de que a administração municipal não teria tomado qualquer iniciativa desconsidera o projeto atualmente em andamento. A Prefeitura estruturou uma parceria público-privada estimada em R$ 286 milhões, com previsão de 110 leitos, centro cirúrgico, ambulatório especializado, serviços de diagnóstico por imagem e conclusão projetada para 2028.
O empreendimento, porém, ainda não saiu do plano administrativo. Em junho de 2026, o consórcio inicialmente classificado em primeiro lugar foi desabilitado por inconsistências documentais, abrindo possibilidade de convocação do segundo colocado, após a tramitação dos recursos. Até a etapa mais recente localizada pela reportagem, não havia contrato definitivo nem início das obras.
Também exige correção factual a afirmação de que José Ronaldo governa Feira de Santana há mais de 25 anos. Ele iniciou seu primeiro mandato em 2001, mas não permaneceu continuamente no cargo. O político administrou o município entre 2001 e 2008, voltou à Prefeitura entre 2013 e abril de 2018 e assumiu o quinto mandato em 1º de janeiro de 2025. A expressão utilizada por Robinson Almeida traduz a longa influência política do prefeito, mas não corresponde a 25 anos ininterruptos de gestão.
Governo estadual ampliou unidades existentes em Feira de Santana
Ao defender a administração de Jerônimo Rodrigues, Robinson Almeida relacionou investimentos estaduais realizados ou anunciados no município. Entre os principais projetos está a ampliação do Hospital Geral Clériston Andrade, para a qual foram autorizados mais de R$ 47 milhões em 2024. A unidade já havia recebido o HGCA 2, com 60 novos leitos, dos quais 40 de terapia intensiva, além de outros 34 leitos entregues em 2024.
O governador anunciou que novas intervenções poderão elevar a capacidade do complexo para aproximadamente 500 leitos de alta complexidade. Trata-se, contudo, de uma projeção governamental que deverá ser acompanhada por cronograma, execução financeira e entrega efetiva das estruturas prometidas.
Feira de Santana também abriga o Hospital Estadual da Criança, unidade integralmente vinculada ao SUS, com 260 leitos, incluindo atendimento pediátrico e obstétrico. O complexo recebeu a Casa da Gestante, do Bebê e da Puérpera, ambulatório especializado e estruturas de ensino e pesquisa, consolidando-se como referência para pacientes de mais de uma centena de municípios.
Esses investimentos afastam a ideia de abandono absoluto da cidade pelo Governo da Bahia. Entretanto, não eliminam a necessidade de avaliar se a dimensão da rede estadual instalada em Feira acompanha o crescimento populacional, a demanda regional e a função exercida pelo município como centro médico do interior.
Salvador e Região Metropolitana receberam rede mais diversificada
A comparação com Salvador e sua Região Metropolitana revela uma assimetria relevante. A apuração não localizou um demonstrativo público consolidado que compare, segundo critérios homogêneos, todos os recursos hospitalares estaduais destinados a Feira de Santana e à Região Metropolitana de Salvador. Ainda assim, o conjunto de grandes obras documentadas demonstra que a capital e municípios vizinhos receberam, nas últimas décadas, uma rede mais ampla e diversificada de hospitais estaduais.
Em Lauro de Freitas, o Estado implantou o Hospital Metropolitano, com investimento aproximado de R$ 180 milhões, 265 leitos e 55 unidades de terapia intensiva. Em Salvador, o Hospital Ortopédico do Estado foi inaugurado em 2024 com cerca de R$ 224 milhões em investimentos, 212 leitos e 13 salas cirúrgicas. A rede da capital ainda recebeu ampliações no Hospital Geral do Estado e no Hospital do Subúrbio.
Camaçari, por sua vez, teve o hospital geral ampliado para 216 leitos, com 49 novas vagas, além da implantação de uma maternidade regional projetada com 110 leitos.
Em Feira de Santana, a política estadual esteve mais concentrada na expansão do Clériston Andrade e no Hospital Estadual da Criança. São estruturas fundamentais, mas o portfólio permanece menos diversificado do que aquele instalado na capital e em municípios metropolitanos como Lauro de Freitas e Camaçari.
A diferença adquire maior relevância porque Feira de Santana possui mais de 616 mil habitantes, segundo o Censo de 2022, e é sede de uma região metropolitana instituída pela Lei Complementar estadual nº 35, de 2011. Além da população residente, seus hospitais recebem pacientes de dezenas de municípios do centro-norte e de outras áreas do interior baiano.
Nesse contexto, é legítima a expectativa de que a rede estadual seja ampliada no município, com novos serviços de alta complexidade, maior capacidade de internação e especialidades regionalizadas, de maneira semelhante ao processo ocorrido em Salvador, Lauro de Freitas e Camaçari. A expansão anunciada do HGCA poderá reduzir parte da defasagem, mas seus resultados dependerão da efetiva conclusão das obras, da contratação de profissionais e da oferta permanente de custeio.
Embate sobre saúde entra na disputa eleitoral de 2026
O confronto entre José Ronaldo e Robinson Almeida ultrapassa a gestão cotidiana do SUS e se insere no ambiente eleitoral de 2026. O prefeito é uma das principais lideranças do União Brasil em Feira de Santana e declarou apoio ao ex-prefeito de Salvador ACM Neto, potencial adversário de Jerônimo Rodrigues na disputa pelo Governo da Bahia. Robinson integra a base petista e utiliza o debate para defender as entregas estaduais e responsabilizar a administração municipal.
A saúde pública tende a ocupar posição central na campanha porque envolve experiências concretas da população: demora na regulação, falta de consultas, dificuldade para obter exames, filas por cirurgias, carência de medicamentos e sobrecarga dos serviços de urgência. O tema oferece terreno para acusações recíprocas, mas as responsabilidades administrativas são compartilhadas e não podem ser reduzidas a slogans eleitorais.
Em termos técnicos, José Ronaldo e Robinson Almeida identificam problemas reais, embora cada um enfatize a responsabilidade do adversário. O prefeito está correto ao exigir do Estado mais leitos, transparência e eficiência na regulação. O deputado também tem razão ao sustentar que a atenção básica municipal precisa evitar o agravamento de doenças e reduzir a pressão sobre os hospitais. A ausência, até o momento, de um hospital municipal geral reforça a cobrança contra a Prefeitura; a concentração histórica dos maiores investimentos na capital e na Região Metropolitana de Salvador sustenta, por outro lado, a demanda por maior expansão estadual em Feira.
Distorção histórica do desenvolvimento regional
A linguagem empregada no embate — especialmente expressões como “não tem moral” e comparações depreciativas entre gestores — pertence ao campo da disputa política, não ao da avaliação técnica. O interesse público exige separar a retórica eleitoral dos indicadores verificáveis. Para isso, Prefeitura e Governo do Estado devem divulgar séries atualizadas sobre cobertura da atenção primária, equipes completas, abastecimento de medicamentos, internações evitáveis, tempo de espera na regulação, disponibilidade de leitos e execução física e financeira das obras anunciadas.
A controvérsia também evidencia uma distorção histórica do desenvolvimento regional baiano. Feira de Santana recebeu hospitais estaduais relevantes e expansões importantes, mas sua condição de segunda maior cidade do estado, sede metropolitana e polo de atendimento para o interior justifica uma rede mais diversificada. A comparação com Salvador, Lauro de Freitas e Camaçari indica que o equilíbrio territorial dos investimentos precisa integrar o planejamento estadual, sem dispensar o município de fortalecer sua própria estrutura preventiva e hospitalar.
Os próximos passos deverão ser acompanhados em três frentes: a conclusão da expansão do Hospital Geral Clériston Andrade, incluindo a promessa de aproximadamente 500 leitos; a definição da licitação, do financiamento e do cronograma do Hospital Municipal; e a publicação de metas mensuráveis para ampliar a atenção básica e reduzir as filas regulatórias. Governo da Bahia, Prefeitura de Feira de Santana, secretarias de Saúde, órgãos de controle e instâncias regionais do SUS terão responsabilidade direta sobre esses resultados. O episódio importa porque a disputa eleitoral será passageira, mas a insuficiência assistencial produz consequências permanentes para pacientes e famílias.
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