Leia a íntegra das perguntas da “Globo” e as respostas de Lula
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou, nesta 5ª feira (27.ago.2026), de uma sabatina na TV Globo. Ele foi entrevistado pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos.
Ao longo de 40 minutos, Lula foi questionado e falou sobre os inquéritos abertos contra o filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, sobre a relação com a lobista Roberta Luchsinger e outros nomes relacionados ao petista citados em investigações da Polícia Federal. Segurança pública, economia e educação também estiveram em destaque.
César Tralli: “Candidato, 3 inquéritos da Polícia Federal investigam o seu filho, Fábio Luís Lula da Silva. A suspeita é de corrupção e tráfico de influência em órgãos federais. A PF apura se ele usou o fato de ser o seu filho para conduzir negócios de interesse privado dentro do Palácio do Planalto, do Ministério da Saúde e também na Dataprev. Os policiais federais afirmam também que ele mantinha uma sociedade oculta com outros 2 empresários, Fernando Bittar e a lobista Roberta Luchsinger. O senhor tem dito que é seu filho que tem que provar que é inocente e que, se ele for culpado, não vai haver privilégios. Mas cabe ao senhor responder pelo governo. Pergunto então ao senhor: que avaliação o senhor faz dessas acusações de corrupção e tráfico de influência na sua gestão?”.
Lula: “Veja, 1º, Tralli, não tem nenhuma acusação. São ilações, ilações, ilações tiradas de telefonemas. Eu conheço isso muito bem, porque já vivi isso. O que que eu tenho dito? Eu não sou do Ministério Público, eu não sou delegado, eu não sou juiz, eu sou o presidente da República e pai do Fábio. Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro que cometer ilícito. Eu não vou afastar delegado da Polícia Federal, eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja acobertado se ele tiver erro. Como outros já fizeram. Ele sabe o que eu passei, sabe o que a minha filha passou. Ele sabe que a Marisa morreu por conta da falsa acusação que foi feita na Lava Jato. Portanto, ele tem obrigação de não cometer erros. Eu estou muito tranquilo com o presidente da República. Tudo que for preciso fazer, no âmbito da polícia e da justiça, para apurar, será dado toda e qualquer garantia. Esse é o comportamento do presidente da República, não é do pai do Fábio, é do presidente da República, que tem que olhar para 215 milhões de brasileiros em igualdade de condições.”
César Tralli: “Mas e as mensagens obtidas pela Polícia Federal no celular dessa lobista, Roberta Luchsinger? Em uma das conversas ela afirma que seu filho entra em campo quando precisa e que os 2 eram uma coisa só. E ela diz: ‘Eu sou o Fábio’. Em uma outra mensagem, ela afirma: ‘Eu trabalho a política via palácio. Eu sou boa de costura política’. Os brasileiros não merecem algum tipo de explicação mais robusta diante de tudo isso que a Polícia Federal levantou até agora?”.
Lula: “Tralli, você é jornalista e você conhece isso melhor do que ninguém. Eu fui vítima disso na Lava Jato, da maior mentira montada neste país pra evitar que eu fosse presidente da República. Eu poderia ter feito qualquer coisa pra não prestar depoimento. Eu fiz questão de prestar mais de 20 depoimentos. Fiquei 589 dias na cadeia, porque somente eu sabia a verdade. E eu queria provar que a imprensa estava divulgando coisa mentirosa, que o Moro tinha mentido pra imprensa, que o Dallagnol tinha mentido pra imprensa. Com meu filho vai acontecer a mesma coisa. Só ele sabe a verdade. Se ele cometer um erro, ele pagará. Não existe outro jeito. Ele não será protegido por ser meu filho, por ser meu irmão, nada.”
“Portanto, ele sabe o que ele tem que fazer. Ele tem que provar a inocência dele. E eu tenho certeza que ele vai ser inocente. Vamos esperar o tempo. Não haverá, da parte da Presidência da República, um milímetro de movimento para proteger o meu filho. A acusação tá feita, a Polícia Federal tá investigando. Se tiver que vir prestar depoimento, ele vai prestar depoimento, vai participar dos inquéritos. Se ele for culpado, pagará o preço. Se não for, ele será inocentado.”
César Tralli: “Candidato, em um desses inquéritos, a Polícia Federal traz indícios de que seu filho teria atuado junto ao Palácio do Planalto para agendar uma reunião entre essa lobista e o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, conhecido como Berger. E aí, em uma dessas mensagens, a lobista avisa seu filho que chegou a Brasília e ele responde: ‘Que ótimo! Vai com tudo’. É uma relação adequada, candidato?”.
Lula: “Você acha que se eu pegasse o seu celular e fosse investigar tudo que cê falou, só tinha coisa certa, coisa correta? O que que uma pilantra pode fazer no telefone? Ou o que que um cara qualquer pode fazer no telefone? Eu tô dizendo pra você que o fato de ter pego conversa no telefone não justifica absolutamente nada. Até agora, não existe uma prova de um centavo público. Até agora, não existe uma prova de uma conversa do meu filho com qualquer ministro. E eu tenho certeza de que não fez. Agora, uma coisa eu vou lhe dizer: meu filho vai ser investigado como qualquer cidadão brasileiro.”
“Eu tô só na expectativa de que termine esse inquérito. Porque o que acontece? Ele está sendo acusado de uma acusação de um crime que nós descobrimos na Previdência Social, criar de 2019 a quadrilha da exploração da Previdência Social. Nós pagamos R$ 3,5 bilhões a 5 milhões de pessoas que foram assaltadas e já arrecadamos quase R$ 100 bilhões das coisas que nós tomamos das quadrilhas que estavam montadas. Portanto, se tem um brasileiro que quer que as coisas sejam investigadas, sou eu.”
Renata Vasconcellos: “Agora, o senhor se referiu há pouco sobre essa lobista e eu gostaria justamente de saber, porque foi outra mensagem obtida pela Polícia Federal que diz que essa lobista, Roberta Luchsinger, afirma que o senhor teria oferecido um cargo a ela. E que o senhor teria dito pra ela: ‘Escolhe onde você quer ficar’. Eu pergunto ao senhor se isso aconteceu e se o senhor já recebeu essa empresária no Palácio.”
Lula: “Só faltou ela dizer o seguinte, que eu ofereci pra ela o Ministério da Defesa, o comando da Marinha, da Aeronáutica, mas assim, é de uma imbecilidade.”
Renata Vasconcellos: “Isso aconteceu?”
Lula: “Eu não conheço essa moça. Nunca vi essa moça na minha vida. Nunca conversei com essa moça. Ela nunca esteve próxima de mim. É o seguinte, malandro é igual em qualquer lugar do mundo. Conversas por telefone, eu tô acompanhando. O caso mais grave do que esse é o do Banco Master, que está silenciado.”
Renata Vasconcellos: “A investigação da Polícia Federal envolve também um outro nome muito próximo ao senhor, que é o seu ex-chefe de gabinete, o Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. A Polícia Federal diz que foi ele quem ajudou a agendar essa reunião desta lobista no Ministério da Saúde e chegou até a receber a minuta de um contrato que favoreceria a empresa ligada ao Careca do INSS, que é considerado o pivô do escândalo do INSS. A minha pergunta ao senhor é a seguinte: o senhor não considera que esse tipo de relação leva suspeitas pra dentro do Palácio?”
Lula: “Leva, leva, lógico que leva. Leva suspeita e leva desconfiança pra mim, porque o Marcola era meu chefe de gabinete. Agora, qual é o papel de um chefe de gabinete? As pessoas sabem que ela é lobista agora que a empresa tá falando que ela é lobista e que ela foi desvendada. Mas o lado concreto é que o papel dele é encaminhar para o ministério. Agora, o que nós precisamos saber é o seguinte: essa mulher conseguiu liberar o dinheiro que ela disse que tava atrás? Ela conseguiu liberar? Tem prova de que esse dinheiro é público? Porque aí é que tá o crime.”
“Por isso é que eu não sou precipitado. Eu fui acusado de ter um apartamento que eu não tinha. Eu fui acusado de ter uma chácara que eu não tinha. E só foi provada a inocência quando o processo foi anulado. Portanto, como eu não sou juiz, eu vou muito devagar com isso. Todos eles que foram citados, o caminho é um só: é o caminho da apuração, da investigação — ou da inocência ou da condenação se tiver cometido crime.”
Renata Vasconcellos: “Sobre a apuração, a Polícia Federal apurou mais. Ela disse também que essa lobista não só teria, por intermédio do seu ex-chefe de gabinete, conseguido a tal reunião, mas ela também pagou despesas pessoais do seu então chefe de gabinete. Boletos, parcelas de financiamento de um carro, faturas de cartão de crédito. Ele ganhou ainda joias, pediu a ela um quadro no valor de 100 mil euros. O Marcola diz que, de fato, foi um empréstimo de R$ 249.000, que ele devolveu esse dinheiro. Mas eu pergunto ao senhor: é adequado o chefe de gabinete da Presidência da República ganhar joias e ter contas pagas por uma lobista com interesse em contratos do governo? O senhor sabia dessa relação que se passava na sala do seu gabinete?”
Lula: “Deixa eu contar uma coisa pra você. Não é adequado, é totalmente errado e o Marcola sabe do erro que ele cometeu, porque não é esse o papel do chefe de gabinete. Ele sabe disso. Agora, ele diz que tomou R$ 249.000 emprestado — só ele sabe a verdade, se ele tomou ou não. Quando tiver uma acareação entre os 2, é que vai saber se foi empréstimo ou não. Eu, por enquanto, acredito na versão dele de que foi empréstimo.”
Renata Vasconcellos: “Por que será que ele não pediu empréstimo a um banco?”
Lula: “Por que que ele não falou comigo? Eu disse pra ele: ‘Cara, eu sou o presidente da República, por que que você não falou comigo do problema que você tava tendo?'”
“Agora é o seguinte: ele cometeu, ele pagará pelo erro que ele cometeu. É isso que vai acontecer. Era uma pessoa da minha total confiança, trabalha comigo há 7 anos, todo o tempo que eu fiquei preso no Paraná, ele ficou o tempo inteiro lá. Agora, cometeu erro, paga o preço do erro cometido. É isso. E eu espero que a polícia cumpra a sua função, eu espero que o Ministério Público cumpra a sua função e o juiz faça o julgamento que for necessário fazer de acordo com os autos do processo. O que eu não me deixo impactar é por ilações. Então eu tô muito tranquilo com relação a isso, muito deprimido e muito chateado, porque o meu filho sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometeu, vai pagar. O Marcola sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometeu, vai pagar. É assim que funciona.”
César Tralli: “Candidato, o senhor há pouco citou o escândalo do INSS. Então, nós vamos entrar agora nesse assunto. Nesse escândalo, mais de 4 milhões de aposentados e pensionistas brasileiros foram vítimas desses descontos ilegais. As fraudes aconteceram entre 2019 e 2024, podem ter passado de R$ 6 bilhões, e as investigações revelaram que mais de 60% desses descontos sob suspeita aconteceram no seu governo. O presidente do INSS no seu governo, Alessandro Stefanuto, está preso preventivamente. Ele é investigado por corrupção, organização criminosa, lavagem de dinheiro, entre outros crimes. Que explicação que o senhor dá hoje a esses aposentados e pensionistas?”
Lula: “Nós já demos a explicação. Primeiro, nós já devolvemos R$ 3,5 bilhões. Não tem um aposentado que foi roubado e que não foi devolvido o dinheiro. E esse dinheiro vai ser ressarcido pelos bens que nós apreendemos da quadrilha. Uma quadrilha que foi montada em 2019, inclusive com a participação do ministro da Previdência daquela época, e nós passamos 2 anos investigando, tanto a CGU quanto a Polícia Federal. Investigando, porque se a gente faz a denúncia antes de ter o processo como um todo, a gente trabalharia facilitando para o bandido. E nós fizemos questão de colocar na cadeia as pessoas. Fizemos questão de pagar e vamos fazer questão de ressarcir os cofres públicos com os bens que nós apreendemos deles.”
Renata Vasconcellos: “Fato é que no segundo ano do seu mandato, a quantidade de descontos suspeitos de ilegalidade mais do que triplicou em relação a 2022. E o seu então ministro da Previdência, Carlos Lupi, foi alertado de que havia indícios de irregularidades. Ele soube disso em 2023, ou seja, 2 anos antes da operação da Polícia Federal revelar o escândalo. O Lupi teve tempo para agir, mas ele só suspendeu os contratos um ano depois de tomar conhecimento dos fatos. Que explicações ele deu para o senhor?”
Lula: “Nem os contratos foram suspensos pelo Lupi. Nós fomos a fundo para investigar, porque a gente não queria que a quadrilha se desmontasse.”
Renata Vasconcellos: “Mas demorou.”
Lula: “Demorou porque a investigação demora.”
Renata Vasconcellos: “Que explicação ele deu? O senhor ficou satisfeito com a explicação?”
Lula: “A explicação é que a Polícia Federal trabalhou com muita seriedade. A CGU trabalhou com muita seriedade para investigar. Levou 2 anos. O dado concreto é que a quadrilha foi montada em 2019, foi presa por nós, descoberta por nós, os previdenciários receberam o seu dinheiro de volta e nós vamos receber o que a Previdência pagou à quadrilha. É simples.”
Renata Vasconcellos: “O senhor pediu explicação ao Lupi?”
Lula: “Não pedi explicação, ele saiu do governo. Ninguém nunca reconhece que tinha corrupção. Precisou a CGU e a Polícia Federal investigar. E é assim que funciona, não tem outro jeito.”
Renata Vasconcellos: “O senhor disse que pediu explicações a Lupi, que ele saiu do governo, mas recentemente o senhor subiu num palanque com Carlos Lupi, fez elogios a ele, recebeu apoio dele. Então pergunto ao senhor: o senhor não vê problema em pedir voto ao lado de alguém que demorou pra agir, pra barrar os desvios e foi o responsável pela indicação do presidente do INSS, que tá preso?”
Lula: “Deixa eu lhe falar uma coisa: ele não tá condenado. Ele é um cidadão livre. Você acha que você pode deixar de conversar com uma pessoa que é sua amiga, que cometeu erro? Se ele pensou, tá em liberdade, não tá condenado?”
Renata Vasconcellos: “Não é conversa, é fazer elogios públicos a ele.”
Lula: “Não, elogio, não. A relação política não tem nada a ver com a relação administrativa. Se ele tivesse cometido [crime], a Polícia Federal já tivesse acusado ele, já tivesse sido condenado, era uma coisa. Ele não tá. Então vamos aguardar. Vamos aguardar a investigação.”
“Eu sei o que é isso, porque eu já passei por isso. […] Eu fui vítima da maior mentira montada nesse país, que tinha como objetivo não me deixar ser candidato em 2018. Eu coloquei a minha cara e falei: ‘Eu vou’. Eu poderia ter saído do Brasil. Eu decidi: ‘Eu vou pra cadeia, porque eu quero provar que o Moro é mentiroso, quero provar que o Dallagnol é mentiroso, quero provar que a imprensa um dia vai pedir desculpa, porque a imprensa brasileira comprou uma mentira, vendeu a mentira e nunca reconheceu que comprou a mentira’.”
Renata Vasconcellos: “O jornalismo da Globo cumpriu a sua obrigação de noticiar os fatos durante essa cobertura.”
Lula: “É difícil pedir desculpa. A imprensa brasileira sabe que ela produziu um monstro mentiroso chamado Moro, chamado Dallagnol. Eu não esqueço do PowerPoint mentiroso contra mim. Não esqueço.”
César Tralli: “Eu só quero dizer ao senhor, por favor, em relação a essa questão do PowerPoint: nossos princípios editoriais, nós fizemos a devida retratação sobre esse assunto. Então, eu peço que a gente siga com a entrevista ainda sobre esse assunto tão importante pro Brasil, que se chama Previdência Social. Além de todos esses descontos indevidos, tem um problema sério hoje ainda no Brasil que afeta aposentados e pensionistas, que é a fila do INSS. Quando o senhor assumiu esse terceiro mandato, o senhor prometeu zerar essa fila, não zerou. Hoje ela tá na casa de 1.300.000 pessoas. O que é que o senhor vai fazer, se reeleito, para oferecer mais qualidade nesse serviço essencial pros brasileiros?”
Lula: “Se você prometer que vai à Brasília, eu, na semana que vem, vou anunciar que a fila zerou. A espera de 45 dias vai estar apenas em 251.000 pessoas, que é o normal. Você não pode deixar de dizer que, no meu governo, os aposentados recebiam uma carta em casa dizendo: ‘Você tem tempo de aposentadoria, pode me receber’. Eles desmontaram o Brasil, desmontaram a Previdência. Nós chegamos com 3 milhões de pessoas na fila. E nós vamos entregar agora a fila terminada da Previdência Social. Você está convidado antecipadamente para ir a Brasília assistir o ato em que a gente vai comemorar com os aposentados. Na semana que vem.”
Renata Vasconcellos: “Candidato, caso Master. Um aliado histórico seu aparece nas investigações. Jaques Wagner, que até junho era líder do governo no Senado. A Polícia Federal apura se ele recebeu um apartamento como propina em troca de promover interesses do banqueiro Daniel Vorcaro na Bahia e no Senado. Apesar dessa investigação, o senhor continuou demonstrando apoio e pediu, inclusive, votos pro Jaques Wagner. Por isso eu lhe pergunto: antes de pedir votos pra ele, não é preciso aguardar as investigações desse caso, esclarecer de fato o envolvimento dele?”
Lula: “Deixa eu falar uma coisa. O Banco Master causou um prejuízo a esse país de R$ 60 bilhões. E tem muita gente nesse país envolvida. Até agora, não tá provado que o Wagner tem relação com o Banco Master. O Wagner tem relação com o Augusto, que na época não era nem do Banco Master. O que eu não posso admitir pra mim e aceitar é que eu possa fazer política vivendo de ilações todo santo dia. Você tem um processo, tem uma apuração, tem uma investigação. As pessoas são inocentes até prova do contrário. Se um dia, Renata, você for acusada, você torce pra ter amigo que acha que você é inocente até provar sua culpa.”
Renata Vasconcellos: “Mas pedir voto pra ele antes das investigações serem [concluídas]…”
Lula: “Ele é senador da república, candidato à reeleição. É um homem que tem relação comigo há 45 anos, desde o tempo de sindicalista. Eu não posso colocar em dúvida o comportamento e a relação do Wagner comigo por conta de uma ilação. Não posso. E posso dizer: eu tenho consciência que o Wagner é honesto. Se ele cometer um desvio, vai acontecer com ele o que vai acontecer com qualquer pessoa, vai pagar o preço do erro que cometeu. Eu não sou uma pessoa que mudo de calçada quando encontro um amigo que tá sendo acusado de alguma coisa. Até prova do contrário, todos são inocentes.”
Renata Vasconcellos: “Candidato, a dívida pública no seu governo ultrapassou os R$ 10 trilhões. O seu governo, a dívida disparou 10 pontos percentuais, atingiu 82% do PIB. E essa trajetória pressiona os juros, que encarece o crédito, que dificulta o investimento e que pesa no bolso das famílias. O seu programa de governo menciona uma necessidade de um ajuste fiscal, mas não traz metas explícitas pros próximos 4 anos. Então, eu quero saber do senhor quais são as suas metas e pra que percentual do PIB o senhor pretende trazer essa dívida?”
Lula: “Renata, eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar essa pergunta falando diferente. Você poderia dizer: ‘Presidente Lula, o senhor foi o único presidente na história do Brasil que fez superavit primário durante 8 anos do seu primeiro mandato’. Nos países do G20, eu fui o único que fez superavit primário durante oito anos. Nunca tive problema fiscal nesse país.”
“Você acha que o Brasil tá com problema de dívida pública porque nós chegamos a 80%? Sabe por quê? Porque nós estamos há mais de 10 anos sem crescer. O PIB só voltou a crescer acima de 2% quando eu voltei à Presidência da República. Você se esquece que eu deixei esse país crescendo 7,5% em 2010? E quando eu voltei, ele estava crescendo 1%. À medida que você começa a crescer a economia, a dívida começa a cair com relação ao PIB. 80% de dívida não é muito se você olhar pros Estados Unidos, olhar para o Japão, olhar para a Itália.”
“A mim não preocupa a dívida pública. Eu herdei esse governo em janeiro de 2023 com déficit fiscal de 2,8%. Você sabe o quanto vai ser o orçamento esse ano? Superavit primário de 0,1%. Portanto, se tem alguém nesse país que tem responsabilidade fiscal, sou eu.”
Renata Vasconcellos: “E nem a trajetória da dívida o preocupa?”
Lula: “Eu quero a trajetória de bater a taxa de juro. Nós pegamos esse país em uma situação em que não tínhamos orçamento para governar. Você está lembrada da PEC da Transição? A PEC da Transição foi inclusive para pagar o rombo deixado pelo outro governo. Deixou um rombo de R$ 94 bilhões de dívida com as pessoas, que nós tivemos que pagar.”
“Responsabilidade, eu aprendi com a dona Lindu. Ela juntava os filhos, pegava o dinheiro e falava: ‘Vocês não podem comprar e gastar o que cês não têm’. Se tem uma coisa que baliza a minha vida, chama-se responsabilidade fiscal. E eu tenho uma equipe econômica que era do Haddad, que agora é do Dario, com muita responsabilidade fiscal.”
César Tralli: “O próprio ministro da Fazenda do senhor tem manifestado preocupação com a rolagem da dívida pública. Ele disse que o próximo governo vai ter que fazer ajustes fiscais, vai ter que reduzir gastos obrigatórios. Então, eu pergunto ao senhor: o senhor pretende reduzir gastos obrigatórios? E se o senhor pretende reduzir gastos obrigatórios, quais exatamente?”
Lula: “O meu estabelecimento é o seguinte: é fazer esse país crescer. A minha proposta de ser candidato à Presidência da República outra vez é porque eu já fiz o básico que tinha que fazer. Depois eu fiz o PAC no 2º mandato. Depois eu fiz o PAC 3, agora nesse mandato, com R$ 1 trilhão e 900 bilhões de investimento.”
“O que que eu quero pro próximo mandato? Eu quero fazer uma revolução tecnológica nesse país. Esse país vai ter que ser dono dos minerais críticos e das terras raras. Esse país vai ter que apostar numa inteligência artificial com linguagem portuguesa. E você percebe que tá sendo vendido enquanto a gente não faz a regulação.”
César Tralli: “Ainda falando sobre economia, sobre essa questão da dívida pública, quero muito ouvir o senhor sobre a crise nas estatais. As estatais brasileiras federais estão acumulando um prejuízo de R$ 20 bilhões no seu governo. E o caso mais emblemático, mais grave, é o dos Correios. Já são 4 anos seguidos de prejuízo, é um rombo histórico, são R$ 15 bilhões, candidato. O senhor considera vender os Correios?”
Lula: “Desde 85, o Correio Brasileiro vive crise e alguém quer privatizar os Correios. Os Correios são uma empresa muito importante pro Brasil, porque ela está em todos os municípios brasileiros. Obviamente, a crise dos Correios é que ele não se adaptou aos novos tempos. Não só a gente tá com uma nova administração nos Correios, que tá com a responsabilidade de fazer o enxugamento que for necessário.”
César Tralli: “O senhor garante, então, que o Correio vai sair dessa crise?”
Lula: “Garanto.”
César Tralli: “O senhor não considera vender?”
Lula: “Não considero vender os Correios. Considero recuperar os Correios para prestar serviço de qualidade ao povo brasileiro.”
Renata Vasconcellos: “Vamos falar do acesso à escola entre jovens de 4 a 17 anos, que tá na casa dos 97% por universalização, o que é bom. Mas a gente sabe que acesso não é a mesma coisa que aprendizagem. Um estudo do Todos pela Educação, divulgado agora em agosto, mostra que 6 em cada 10 jovens brasileiros terminam o ensino médio na rede pública sem aprender o básico em matemática. Eu quero saber do senhor por que esse resultado e qual é o seu plano para melhorar, se o senhor for reeleito?”
Lula: “Então deixa eu te dizer uma coisa, Renata: se tem uma coisa que eu tenho orgulho, é que o Brasil nunca teve um presidente da República que cuidasse da educação como eu cuidei. Eu sou o presidente da República que mais colocou aluno em escola de ensino integral. Nós fizemos um pacto com os prefeitos para alfabetização das crianças na idade certa, que a gente previa até 2030 chegar a 80% dos jovens. Chegamos a 66% no 1º ano desse acordo.”
“E sou o presidente que mais fiz universidade nesse país, mais fiz institutos federais. Dos quase 800 institutos desse país, 80% foi feito por mim e pela Dilma.”
Renata Vasconcellos: “E com relação a essa dificuldade do aprendizado?”
Lula: “Veja, a dificuldade do aprendizado, você tem que entender que a educação básica é administrada pelo Estado. O Ceará e o Piauí são 2 Estados pobres que têm o melhor nível de educação desse país. Você sabia que 40% dos alunos que passam no vestibular do ITA em São José dos Campos são cearenses? Por isso eu levei o ITA para Fortaleza, como premiação.”
Renata Vasconcellos: “E os especialistas em educação dizem que é muito importante investir na formação dos professores. Qual é a sua proposta pra isso?”
Lula: “Nós estamos dando uma bolsa de estudo para o menino do Enem que passar em 1º lugar e for ser professor. Porque normalmente ele não quer. Os melhores querem outra coisa. E nós estamos dando uma bolsa, porque nós sabemos que a qualidade do professor influencia na formação do aluno. Quem criou a Olimpíada da Matemática no Brasil, na escola pública, fui eu. Contra a vontade de muita gente que dizia que as crianças não gostavam de matemática. Na 1ª inscrição, entraram 10 milhões de crianças.”
Renata Vasconcellos: “Agora, antes de encerrar, eu gostaria de ouvir algo do senhor sobre um tema muito importante que é segurança pública. Uma das maiores preocupações do brasileiro hoje. O senhor está no 3º mandato, são 12 anos na cadeira de presidente. Na sua avaliação, candidato, por que nesses mais de 20 anos o crime organizado se espalhou pelo Brasil?”
Lula: “É importante que a gente contribua para informar as pessoas que estão nos assistindo. Na Constituição de 88, a Constituição aprovou que a segurança pública era responsabilidade do Estado. O governo federal ficou com a Polícia Federal, com a Polícia Rodoviária Federal e com a Polícia Penal. Eu tô discutindo no Congresso Nacional a PEC da Segurança Pública. A hora que for aprovada a PEC, eu crio o Ministério da Segurança Pública. Porque primeiro eu quero estabelecer qual é a participação de cada ente federado na segurança pública. Qual vai ser o papel da União, qual vai ser o papel do Estado e qual vai ser o papel do município.”
Renata Vasconcellos: “O senhor vai completar 12 anos como presidente. O PT governa a Bahia há 20 anos. E a Bahia hoje tem 5 das 10 cidades mais violentas do Brasil. Por que que o PT não tem conseguido coordenar ações eficientes em segurança na Bahia, mesmo governando o país e o Estado ao mesmo tempo e há tanto tempo, candidato?”
Lula: “Não seja injusto com a Bahia. Nenhum governador do Brasil, nenhum, conseguiu resolver o problema da segurança pública. Só vai conseguir se a gente tiver muito investimento em inteligência. É isso que eu quero fazer. Aprovando a PEC, nós vamos criar o Ministério da Segurança Pública, vamos definir qual é o papel da Polícia Federal nos Estados.”
“O meu desejo é recuperar o território do povo. Aquela rua é do povo do Rio, não é do bandido. A escola é do povo, não é do bandido. O bairro é da escola. Nós precisamos então enfrentar isso. Nós estamos preparados para muitas operações. Por isso que eu fui conversar com o Alcolumbre. Vamos aprovar a PEC, porque aprovando a PEC, eu crio o ministério na semana seguinte. E depois de criar o ministério, não é que ele vai funcionar rapidamente, não. Eu vou ter que convencer […] que tem que colocar recurso, porque para a gente ter uma polícia eficiente e a gente acabar com o crime organizado, a gente vai ter que ter muito dinheiro”.
SABATINAS DA “TV GLOBO”
A TV Globo entrevista nesta semana os 6 candidatos mais bem colocados na pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto de 2026. As sabatinas são exibidas depois do “Jornal Nacional”, mas não integram o telejornal.
A rodada começou na 2ª feira (24.ago), com Romeu Zema (Novo), e termina no sábado (29.ago), com Augusto Cury (Avante).
Eis o calendário:
- 24.ago.2026 – Romeu Zema (Novo) – criticou o Supremo, disse que o Judiciário faz mais “política do que justiça” e defendeu a anistia para os envolvidos no 8 de janeiro e condenados por tentativa de golpe de Estado;
- 25.ago.2026 – Ronaldo Caiado (PSD) – evitou responder a perguntas de forma direta, falou em “pacificar” o país com uma anistia e disse que o problema do crime organizado deve ser resolvido internamente;
- 26.ago.2026 – Renan Santos (Missão) – defendeu que o Brasil tenha bomba atômica e afirmou que haverá “regime de exceção para retomar a favela”;
- 27.ago.2026 – Luiz Inácio Lula da Silva (PT);
- 28.ago.2026 – Flávio Bolsonaro (PL);
- 29.ago.2026 – Augusto Cury (Avante).
Qual é a sua reação?
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